terça-feira, 12 de março de 2019

Quem é Quem na capa do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band


Um dos álbuns mais importantes da história, o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) também possui uma das capas mais enigmáticas de todos os tempos, em que, ao lado dos Beatles, é exibida uma montagem com dezenas de personalidades do mundo são retratadas em formatos e cores diversas. Você certamente conhece várias dessas pessoas. E para que passe a conhecer TODAS, aqui vai o "quem é quem" de todas aquelas personalidades imortalizadas na icônica imagem.

01 - Swami Sriyukteswar Giri: guru e astrólogo indiano. Famoso por vivenciar na prática, anteriormente, os ensinamentos que passou aos discípulos.
02 - Aleister Crowley: o ocultista mais influente de todos os tempos. Crowley criou a Thelema, filosofia libertária com o lema: “Faze o que tu queres há de ser toda a Lei”. 
03 - Mae West: actriz e sex symbol do cinema americano nos anos 1930. Poucos anos antes de aparecer na capa de Sgt. Pepper’s, gravou dois álbuns de rock'n'roll.
04 - Lenny Bruce: comediante americano. Foi preso e condenado na década de 1960 por abordar temas supostamente obscenos durante suas apresentações.
05 - Karlheinz Stockhausen: compositor erudito alemão, frequentemente classificado como um dos mais importantes e controversos do século XX.
06 - W.C. Fields: actor e humorista norte-americano, muito popular no rádio e no cinema nos anos 1930. Dono de um humor ácido, sarcástico e irônico.
07 - Carl Jung: psiquiatra suiço fundador da psicologia analítica. Foi discípulo e depois dissidente de Freud, e assinou conceitos importantíssimos para o estudo da mente humana, como “inconsciente coletivo” e “arquétipos”.
08 - Edgar Allan Poe: escritor e poeta norte-americano, e um dos mais importantes autores de mistério e suspense da história.
09 - Fred Astaire: ator e dançarino. Revolucionou os musicais da Broadway, e depois expandiu seu legado no cinema.
10 - Richard Merkin: artista plástico e ilustrador norte-americano, fascinado pelas décadas de 1920 e 1930. Entrou na capa pela amizade com Peter Blake.
11 - The Vargas Girl: pin-up desenhada pelo ilustrador Alberto Vargas, o maior e mais influente desenhista de do estilo do século XX.
12 - Huntz Hall: ator nova-iorquino de rádio, televisão e cinema, famoso nas décadas de 1940 e 1950.
13 - Simon Rodia: imigrante italiano que viveu em Los Angeles. Operário de construção civil, Rodia construiu as Watts Towers, que se tornaram um dos maiores cartôes-postais da cidade.
14 - Bob Dylan: cantor e compositor norte-americano. Frequentemente listada como uma dos mais influentes da história da música popular, a obra de Dylan é considerada por muitos tão importante quanto a dos Beatles, especialmente pelas letras rebuscadas.
15 - Aubrey Beardsley: artista plástico inglês, morreu de tuberculose aos 25 anos. Ganhou notoriedade pelas ilustrações com traços quase eróticos, sempre em preto e branco, de personagens bizarros e grotescos.
16 - Robert Peel: foi primeiro-ministro da Inglaterra por duas oportunidades, no século XIX, e um dos fundadores do Partido Conservador inglês.
17 - Aldous Huxley: escritor e ensaísta inglês. Huxley escreveu Admirável Mundo Novo, romance ícone da ficção científica e das distopias polÌticas, considerado um dos mais influentes do século XX.
18 - Dylan Thomas: poeta modernista, escritor e roteirista galês. Boêmio, morreu aos 39 anos, mas tornou-se uma lenda da literatura inglesa.
19 - Terry Southern: escritor, roteirista e palestrante norte-americano, usou seu afiado humor satírico em filmes como Dr. Fantástico (1964) e A Mesa do Diabo (1965).
20 - Dion: cantor e compositor norte-americano, popular nos Estados Unidos antes da Invasão Britânica na década de 1960. Segue em atividade até hoje.
21 - Tony Curtis: ator de cinema norte-americano, popular nas décadas de 1950 e 1960. Versátil e eclético, ganhou reconhecimento por boas atuações em dramas, comédias e thrillers.
22 - Wallace Berman: artista plástico nova-iorquino, integrou o movimento Beat e se tornou um dos ícones da arte americana após a Segunda Guerra Mundial.
23 - Tommy Handley: comediante britânico. Se tornou personalidade de rádio com a série It’s That Man Again, transmitida pela BBC.
24 - Marilyn Monroe: atriz e modelo. Um dos sex symbols mais marcantes da história da cultura pop, teve a vida marcada por escândalos e controvérsias.
25 - William S. Burroughs: escritor, poeta e ensaísta americano, integrou o pós-modernismo e o movimento Beat. Boa parte de sua obra foi influenciada pelo seu convívio com o vício em heroína.
26 - Mahavatar Babaji: tratado como divindade, o mestre espiritual Mahavatar Babaji é considerado imortal, e sua existência nunca foi provada. Nunca se soube exatamente sua idade ou verdadeira história – se é que existiu.
27 - Stan Laurel: ator e comediante, Laurel ficou famoso no papel de “Magro” da dupla “O Gordo e o Magro”, com Oliver Hardy.
28 - Richard Lindner: pintor alemão naturalizado americano, caracterizado pelo amplo e intenso uso de cores e figuras inspiradas em robôs.
29 - Oliver Hardy: ator e comediante, Hardy ficou famoso no papel de “Gordo” da dupla “O Gordo e o Magro”, com Stan Laurel.
30 - Karl Marx: filósofo político e economista alemão, desenvolveu as bases teóricas para o socialismo e o comunismo.
31 - H. G. Wells: escritor inglês, é até hoje considerado um dos pioneiros da ficção científica.
32 - Paramahansa Yogananda: guru indiano que contribuiu para a popularização da yoga e da meditação no ocidente, com o livro Autobiografia de um Yogue.
33 - Stuart Stucliffe: Stucliffe foi o primeiro baixista dos Beatles, quando Paul McCartney ainda se revezava apenas entre os vocais e as guitarras. Stuart largou a banda em 1961 para estudar artes visuais, e morreu no ano seguinte, aos 21 anos, após sofrer um aneurisma.
34 - The Petty Girl 1: pin-up desenhada por George Petty, que teve o trabalho popularizado quando suas ilustrações passaram a decorar aviões americanos utilizados na Segunda Guerra Mundial.
35 - Max Miller: comediante inglês, Miller foi destaque nos cinemas e em apresentações ao vivo nas décadas de 1930 e 1940, com canções bem-humoradas escritas por ele.
36 - The Petty Girl 2: segunda pin-up desenhada por George Petty.
37 - Marlon Brando: um dos atores mais populares da história do cinema holywoodiano. Na época da gravação de Sgt. Pepper’s, Brando passava por um período obscuro, e só teria a carreira revitalizada em 1972, com o lançamento de O Poderoso Chefão.
38 - Tom Mix: ator americano especializado em filmes de faroeste. Mix se tornou referência no gênero. Ele tem mais de 300 filmes no currículo em apenas 25 anos de carreira.
39 - Oscar Wilde: escritor inglês, autor do clássico O Retrato de Dorian Grey.
40 - Tyrone Power: actor americano, estrela de filmes como A Marca do Zorro, O Fio da Navalha, O Cisne Negro e Mergulho no Inferno.
41 - Larry Bell: artista plástico (pintor e escultor) nascido em 1939, que mantinha um estúdio em Venice, California, onde produziu diversas peças de Arte Moderna, atualmente expostas em prestigiados museus, como o National Endowment for the Arts e o Guggenheim Foundation.
42 - Dr. Livingstone: missionário e explorador britânico que se tornou famoso por ter sido um dos primeiros europeus a terem explorado o interior da África.
43 - Johnny Weissmuller: atleta e ator norte-americano, famoso por interpretar Tarzan, o personagem de ficção criado pelo escritor estadunidense Edgar Rice Burroughs.
44 - Stephen Crane: poeta e jornalista, nascido em Newark, New Jersey. Autor de livros como A Glória De Um Covarde: Um Episódio da Guerra Civil Americana e A Insígnia Vermelha da Coragem.
45 - Issy Bonn: actor judeu britânico, cantor e comediante, famoso pela sua gravação de "My Yiddishe Momme". apareceu em filmes como I Thank You (1941) e Discoveries (1939). Morreu no dia do seu aniversário, em 1977, com 7 anos. É o dono da mão que aparece sobre a cabeça de Paul McCartney.
46 - George Bernard Shaw: dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês. Cofundador da London School of Economics, foi também o autor de comédias satíricas de espírito irreverente e inconformista. autor de obras como Um socialista insociável e Casamento Desigual.
47 - Albert Stubbins: jogador de futebol atuante no Liverpool, no Newcastle Unitede e no Ashington. Morreu em 2002 com 83 anos.
48 - H. C. Westermann: importante escultor e pintor, autor de peças de carpintaria consideradas uma revolução nas artes plásticas.
49 - Lahiri Mahasaya: foi um grande iogue indiano e o guru de Sri Yukteswar Giri. Destacou-se entre os homens indianos sagrados por ter sido um chefe de família. Lahiri viveu com sua família em Varanasi, ao invés de morar num templo ou monastério distante da vida familiar. Mesmo assim, alcançou uma reputação substancial entre os religiosos do século XIX.
50 - Lewis Carroll: autor inglês de Alice no País das Maravilhas e da continuação Alice Através do Espelho. Carroll é o maior nome do absurdo literário.
51 - Sonny Liston: pugilista ex-campeão mundial dos pesos pesados, cuja performance nos ringues assustava e surpreendia o mundo do boxe. Sonny Liston não se tornou conhecido apenas por suas lutas. O pugilista também era temido por sua ligação com a Máfia. Sua luta mais famosa é aquela em que perdeu para Muhammad Ali em 1964.
52, 53, 54 e 55 - Os Beatles em seus fatos pretos da fase anterior à psicodelia, representados em quatro estátuas de cera.
56 - Albert Einstein: considerado o maior físico do século XX, Einstein revolucionou a ciência com a Teoria da Relatividade. Na capa aparece quase todo coberto por John Lennon.
57 - Marlene Dietrich: actriz e cantora alemã, presente em filmes como O Diabo Feito Mulher (1952), A Volta ao Mundo em 80 Dias (1956), Testemunha de Acusação (1957), A Marca da Maldade (1958) e Julgamento em Nuremberg (1961).
58 - Diana Dors: a atriz foi considerada uma das mais belas do cinema inglês a partir da década de 1940, sempre comparada às tradicionais louras americanas.
59 - Shirley Temple: uma das estrelas mais importantes de Hollywood, Shirley estrelou filmes como A Pequena Princesa e A Pequena Órfã. Ao longo da carreira fez 43 longas metragens. Morreu em 2014, aos 85 anos.
60 - Bobby Breen: actor e cantor canadiano da década de 1930.
61 - Thomas Edward Lawrence: também conhecido como Lawrence da Arábia, foi um arqueólogo, militar, agente secreto, diplomata e escritor britânico.
62 - Sigmund Freud: o neurologista austríaco “inventou” a psicanálise ao desenvolver teorias sobre o subconsciente, e hoje é comparado a nomes históricos como Platão e São Tomás de Aquino. Aparece quase totalmente coberto pela imagem da Puppy Girl, abaixo de Bob Dylan. 
63 - Desconhecida: escultura em cera representando uma mulher com um chapéu listrado.
Observações: além desses personagens listados, na parte inferior, onde aparece o arranjo floral, também aparecem as imagens de 3 bonecas (uma delas com a camisa onde aparece escrito 'Welcome The Rolling Stones'), um busto de homem não-identificado e um guru com aparência extra-terrestre.

  • By José Carlos Almeida

segunda-feira, 4 de março de 2019

A Resonet Futurama de George Harrison


Em 1959 o embargo britânico sobre produtos americanos ainda vigorava e marcas como Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker eram impossíveis de se conseguir no Reino Unido. A maioria dos jovens guitarristas sonhava com instrumentos inalcançáveis. George Harrison, na adolescência, sonhava acordado com guitarras, desenhando-as nos cadernos da escola e estudando as capas dos discos de seus ídolos.

A Futurama era o mais próximo que, nessa época, na Grã Bretanha, um guitarrista conseguiria chegar da mais desejada guitarra da época: a Fender Stratocaster. Desde 1958 os guitarristas britânicos ficavam embevecidos a olhar para a capa de qualquer disco de Buddy Holly cobiçando a guitarra com que ele se apresentava, a futurista Fender Stratocaster, com três captadores. George Harrison era um deles.

"Se fosse como eu queria, a "Strat" (Fender Stratocaster) teria sido a minha primeira guitarra. Tinha visto a Strat de Buddy Holly na capa do álbum "Chirping Crickets" e tentei encontrar uma. Mas em Liverpool, nesses dias, a única coisa que pude encontrar que lembrasse uma Strat foi uma Futurama. Era muito difícil de tocar, as cordas ficavam a mais ou menos meia polegada da escala. Mas apesar disso ela realmente parecia algo futurista", confessou George.

Em 20 de novembro de 1959, George Harrison e Paul McCartney foram à loja de instrumentos de Frank Hessy.

"Paul estava comigo quando comprei a Futurama. Estava pendurada na parede com todas as outras guitarras e Paul ligou-a a um amplificador mas nenhum som saiu dela. Então aumentou o volume do amplificador ao máximo. A guitarra tinha três chaves oscilantes e quando acionei uma delas um poderoso "boom" saiu do amplificador e todas as outras guitarras caíram da parede. Minha mãe avaliou a compra a prazo, o que significava uma libra agora e o resto em prestações mnsais".

A Cooperativa DrevokovAnos antes, em 1953, em Blatna, Checoslováquia, hoje República Checa, a Cooperativa Drevokov - uma empresa estatal especializada em produzir lambris, móveis, cabides e outros produtos de madeira - recebia um novo gerente: Josef Ruzicka, um homem com inclinações musicais. Por sua decisão a companhia começou a experimentar a produção de instrumentos musicais e em 1954 ele e o designer Vlcek lançaram o primeiro instrumento eléctrico da empresa. Era uma guitarra estilo havaiana que ostentava a marca "Resonet". O modelo era chamado de "Akord" e a "Resonet Akord" marcou o início da manufactura de guitarras eléctricas na Checoslováquia.


Resonet foi o nome que a Drevokov usou para todos os seus instrumentos eléctricos. Apesar de ainda fazerem confusão não existe uma empresa Resonet, esse nome é só uma marca. No cartão de garantia havia a frase: "Resonet: a marca dos primeiros instrumentos electrofônicos checoslovacos".

A Resonet Grazioso a Resonet Akord foram instrumentos muito populares no ano seguinte e a Drevokov decidiu fabricar uma guitarra eléctrica, instrumento que se popularizava rapidamente. 

A inspiração para esse projecto foi uma Fender Stratocaster 1955 trazida dos EUA. Ao invés de a copiarem, os técnicos e disigneres da fábrica examinaram-na cuidadosamente e redesenharam-na completamente, tendo aprefeiçoado várias funções da Stratocaster, particularmente a parte eléctrica e o trémolo.

A nova Resonet tinha interruptores oscilantes para a selecção de captadores que permitiam sete combinações (oito se considerarmos a guitarra sem emitir som) ou seja, sete timbres diferentes. 
Este pormenor estava muito à frente da Stratocaster, que naquela época só permitia três timbres. 
Tinha ainda um controle de tom "master", que actuava em todos os captadores - a Stratocaster não tinha um controle desses para o captador da ponte. 

A pestana era uma peça totalmente inovadora integrando as guias e o apoio das cordas. Esse sistema foi muito usado por luthiers independentes nos anos 80 e ainda é utilizado por alguns. Os captadores tinham polos com ajustes individuais que não existiam na Stratocaster. O suporte do jack de saída era praticamente idêntico ao do instrumento da Fender.


O trémolo foi um projecto totalmente novo e tornou-se um mecanismo muito sofisticado. Nada disponível no mundo se aproximava da excelência da engenharia desse dispositivo. Muito mais avançado que o da Fender, pivotava em dois pilares - como seriam os Floyd Rose bem mais tarde - e tinha seis molas individualmente ajustáveis, uma para cada corda.


Uma diferença evidente estava na cabeça do braço, que apresentava tarraxas no estilo de violão clássico, com pinos grossos, distribuídas no formato "3+3" ao contrário das da Stratocaster que eram de pino fino e distribuídas no formato "6-em-linha". As maiores similitudes estão na forma de construção do braço numa só peça, sem a escala em separado e na cor escolhida para o seu acabamento.

Apesar de serem encontrados instrumentos pintados em cores sólidas como preto e vermelho, a grande maioria teve o corpo pintado em sunburst de dois tons com os braços em acabamento natural, uma combinação tradicional da Stratocaster. Ao modelo foi dado o nome de "Grazioso" que se tornou um grande sucesso, ganhando até uma medalha de ouro na "Expo 1958" em Bruxelas.

No final de 1957 a Drevokov assinou um contrato com a Selmer para distribuição de seus produtos na Grã Bretanha. As primeiras peças chegaram ostentando o nome "Grazioso" na cabeça, mas isso logo se mostrou inadequado mercadologicamente. 

Logo depois a Selmer rebatizou as guitarras com o nome Futurama que começaram a chegar sem nenhum nome inscrito na head stock. Vinham apenas com o logo "Resonet" no pick guard. Só as guitarras sunburst é que foram importados. Pelas novidades que apresentava, a Selmer promovia-as como "A Mais Avançada Guitarra Eléctrica Do Mundo", o que não fugia muito da verdade na época.

Era uma Futurama dessa primeira versão que George Harrison usava.

Apesar de George reclamar da dificuldade em a tocar, tudo indica que não era um mau instrumento e com certeza era uma guitarra muito moderna para os padrões disponíveis na Grã Bretanha na época. 

A Futurama era vendida por £57.75 (aprox. £1030 hoje), incluindo uma correia. Um estojo custava mais £6.30. Isso fazia da Futurama um instrumento muito caro numa época em que uma Hofner Club 40 custava £33.60 e uma Rosetti Solid 7 £18.90. 

Mais tarde a Futurama foi comercializada como uma linha mais económica, mas as primeiras certamente colocavam-se na faixa mais alta. Muitos guitarristas influentes da época usaram estas guitarras, entre eles Gerry Marsden do Gerry and the Pacemakers e o jovem Jimmy Page, que trocou sua Hofner Senator por uma Grazioso quando as suas habilidades guitarrísticas começaram a melhorar. E é facto que quase todas as bandas da Grã Bretanha tinham uma Futurama entre os seus instrumentos no início dos anos 60. 


Larry Wassgren, um colecionador de Wisconsin, EUA, possui uma exactamente igual à de George e conta que ela tem uma excelente sonoridade e é muito confortável de tocar.

George usou-a desde o final de Novembro de 1959 até a primeira quinzena de Julho de 1961 quando comprou a Gretsch Duo Jet. Isso cobre várias apresentações em Liverpool e as duas viagens à Hamburgo. Foi ela que George usou nas gravações em Junho de 1961 quando os Beatles acompanharam Tony Sheridan em oito canções, que foram lançadas no LP Tony Sheridan & The Beat Brothers (Os Beatles foram rebatizados por Bert Kaempfert, o produtor do disco, como "The Beat Brothers" porque a palavra "beatles" pronunciada com sotaque germânico soava muito parecida com "peedles" que é uma palavra alemã para "pênis"). Nesse dia os Beatles também gravaram "Ain't She Sweet" e "Cry For A Shadow" na qual se pode ouvir George executando o solo com a sua Futurama.

Outros instrumentos Resonet interessantes eram a guitarra lap-steel Arioso e o baixo Arco, um baixo elétrico para ser tocado como um contrabaixo acústico de orquestra. A Arioso, introduzida em 1955, tinha um captador com duas bobinas reversas - os tchecos haviam inventado o captador humbucker independentemente de Seth Lover e nem se deram conta disso! Estranhamente ele não foi desenvolvido posteriormente e nunca mais apareceu num instrumento da marca.

O Baixo Arco era um instrumento de concepção inédita na época. Tinha um formato angular, um repouso regulável para o joelho e um controle de volume na traseira do instrumento, para fácil acesso. O baixo Arco também foi importado pela Selmer como o Futurama Bass.

Outro instrumento à frente de seu tempo foi o baixo Pedro VI que aparentemente foi o primeiro baixo de seis cordas a aparecer comercialmente.

Em 1959 um novo director tomou posse na Drevokov, um homem que não se importava muito com música. Josef Ruzicka e sua equipe foram transferidos para uma nova fábrica em Hradec Kralove e posteriormente para as fábricas em Krnov e Horovice. 
Nesta época a produção estava sob a tutela da estatal CSHN (Instrumentos Musicais Tchecoslovacos) e várias marcas foram utilizadas, como Neoton, Delicia e Jolana. 
Muitas mudanças foram feitas na Futurama mas sempre no sentido de tornar mais barato o produto, acabando por comprometer a sua qualidade. 

Conta-se uma história interessante: a mudança de braço aparafusado para braço colado aconteceu não por uma busca de timbre mas sim porque eles acabarampor ficar sem parafusos.

No momento que o embargo aos produtos americanos foi levantado e as Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker ficaram disponíveis na Grã Bretanha, as Futurama foram imediatamente esquecidas. Apesar disso, a fábrica continua produzindo até hoje e há inclusive um modelo Grazioso atualizado. Nos anos 80 eles até fabricaram os modelos Striker e Vanguard para a Kramer.

Hoje, com o crescente entusiasmo com coisas relacionadas aos Beatles, as Futurama têm sido alvo de um maior interesse no mercado "vintage".

Não sei se vai chegar à procura que têm os outros instrumentos mais nobres que os Beatles usaram mas, conhecendo toda a história e as inovações escondidas nela, ficamos com vontade de ter uma Futurama bem ao ao alcance das mãos.

É um capítulo honroso da história da guitarra!

Carlos Assale

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

25 de Fevereiro 2019 - George Harrison, teria 76 anos.






George Harrison, em uma das poucas entrevistas que deu nos anos 80, disse: "eu Toco guitarra mais ou menos bem, escrevi algumas músicas, produzi alguns poucos filmes, mas nenhuma dessas coisas me define. Na verdade, eu sou alguém diferente a tudo isso". 

Chamaram-lhe "the quite Beatle" ou "o Beatle quieto". Trata-se de um mal-entendido, de uma etiqueta confortável, mas injusta e que nada tinha a ver com a real personalidade de George.
Foi o que teve o menor perfil público dos quatro. Uma espécie de Houdini, com guitarra, com uma capacidade quase mágica para escapar dos lugares desconfortáveis.

Se tivessem feito apostas aquando da dissolução do grupo, a maioria teria apostado que George se instalaria em um ashram indiano com pouco contacto com o mundo ocidental. Nada mais distante da realidade. Se bem que George tinha um lado espiritual, muito desenvolvido, mas também o contacto com o profano era quotidiano e voraz.
Harrison foi o Beatle das primeiras vezes. Foi o primeiro a lançar um disco solo, foi o primeiro a chegar ao topo das paradas, o primeiro a sair em turnê a solo, o primeiro a aventurar-se em fusões com a música de outras regiões: uma precoce world music, o primeiro a ter sucesso na produção cinematográfica, o inventor dos shows beneficentes.


Mas tudo isso não aconteceu porque a sua intenção era chegar primeiro, de ultrapassar todos os outros. Não havia em Harrison, a vocação, da avidez do pioneiro, mas sim a colocação em prática de um espírito livre, de alguém que se permitia pensar fora das estruturas convencionais e de se movimentar para aquilo que realmente desejava.

Era o mais jovem dos quatro fabulosos. Essa diferença de idade, mínima, de apenas um ano com Paul, manteve-se como diferença psicológica durante toda a trajectória do quarteto. Aquando da sua estadia em Hamburgo, quando ainda eram um quinteto (com Stu Sutcliffe e Pete Best, sem Ringo Starr na bateria), George escondia-se em algum canto quando a polícia passava, á noite, para não ser deportado, porque era menor de idade.
Esses dias na Alemanha, deram ao grupo uma ginástica e uma coesão que os consolidou. As seis horas diárias em frente ao público, todas as noites da semana, forneceram-lhes as ferramentas do ofício. O resto foi a capacidade para compreender uma época, e a combinação incomum de génios.

Desde o início, George teve que defender o seu lugar e tornou-se no guitarrista principal, o solista. Apesar das peculiaridades que isso implicava, em que os Beatles com Lennon como o outro guitarrista e o baixo criativo e protagonista de Paul McCartney. No primeiro álbum do grupo, não aparece como compositor, mas é o vocalista líder em um par de temas em que se destaca o Do you want to know a secret?


Lennon contou que ele e Paul nunca tinham pensado que os outros dois tivessem capacidades "canoras", "mas como o Ringo e o George tinham os seus fãs, decidimos compor para eles para eles".
Se bem certo é que no princípio George não escrevia, quando começou a fazê-lo foi subestimado pelos seus companheiros, além de se questionar como é que seria possível intrometer-se na dupla de compositores mais famosa do mundo George tinha consciência que seria muito dificil encontrar o seu espaço entre Lennon e McCartney o seu gênio e os seus egos enormes. 

Vários temas de George foram descartados e os que conseguiram chegar a ser gravados foram indiscutíveis maravilhas, músicas invencíveis, e eternas como Something, While my guitar Gently Weeps e Here Comes the Sun.Esta última deu a George um triunfo retrospectivo, póstumo: é a canção da banda mais ouvida no Spotify, com 266 milhões de visualizações supera todas as maravilhas de Lennon-McCartney. 

Durante a gravação de Let it Be, George Martin e os outros três, mas em especial McCartney que estava no controle da situação, e exercia uma espécie de poder despótico, rejeitaram várias de suas músicas: Let it Down, Isn't it a Pity e até Something.
Esse estado de tensão permanente em que vivem os Beatles durante a gravação dos seus últimos trabalhos, em que as drogas, o cansaço, os amores e as ambições de cada um colidiam permanentemente, George deixou o grupo depois de uma discussão com Paul. 
Nem gritos nem escândalos. Simplesmente disse que para ele já estava bem; sem drama despediu-se com um:"Com certeza que nos veremos em uma dessas noites em algum clube".


Surpreende que nas duas ocasiões em que um membro colocou um limite e anunciou que iria abandonar o grupo (Ringo havia feito meses antes, enquanto gravavam o Álbum Branco), o motivo não tenha sido um confronto entre John e Paul. 
Harrison não se sentia bem e, como sempre, preferiu isolar-se e fazer o que considerava mais adequado. Chegou a sua casa e, naquela mesma tarde, compôs Wah Wah, outra das canções que expressa o seu desconforto, uma outra música autobiográfica que era uma das suas especialidades.
Alguns dias depois, voltou com Billy Preston (que já havia juntado a Eric Clapton para o solo de guitarra de While My Guitar....). 
A incorporação de Billy acalmou o ambiente que se vivia nas sessões de gravação. A gravação de Something teve que esperar para ser gravado depois das sessões que deram origem a Abbey Road. 
Com os anos, foi uma dos temas mais tocadas na história da música. A única dos Beatles, que a supera é Yesterday.
Frank Sinatra disse que era a melhor canção de amor escrita nos últimos cinquenta anos.

Lennon na célebre canção God escreveu que "não acreditava nos Beatles". E também proclamou que "o sonho acabou". Mas quem levou isso para a prática, que entendeu, primeiro foi George. Sabia que não devia ficar acorrentado a essa fama, a essa loucura, e nem sequer aos seus três amigos. Soube que havia vida depois dos Beatles.Sem ressentimentos, porque, ao fim e ao cabo, tinha sido uma época maravilhosa e que não tinha saído muito bem, tinha sua justificativa. Assim explicou: 

"Éramos quatro pessoas relativamente saudáveis no meio de uma loucura extrema".
Esse desprezo interno que era votado ás suas canções teve, em pouco tempo, um efeito benéfico. O mundo estava convencido de que a magia era propriedade exclusiva de Lennon e McCartney - como não estar?- mas o talento de George, como guitarrista, para a maioria, nem sequer era discutível. Assim ele decidiu mostrar ao mundo do que era capaz. 


Além disso, como muitas de suas canções não foram considerados pelo grupo, para o seu disco solo post separação veio com um arsenal de temas extraordinários integrado por composições que os seus companheiros ignoraram.
Assim, o álbum triplo All Things Must Past não foi somente o primeiro disco de um ex-Beatle a chegar ao topo do ranking, mas é também a primeira obra-prima que surge da dissolução. 

Um pequena e pouco inocente pergunta: 
Quantas obras-primas produzidas individualmente após a separação? 
O triplo de Harrison, Plastic Ono Band, de Lennon e, possivelmente, Band on the Run são os que podem integrar a lista, sem muitas hesitações.

No ano seguinte, George Harrison levou a cabo o primeiro concerto beneficente da história.
Duas apresentações no Madison Square Garden superlotado em que se apresentou ao lado de Bob Dylan ( nos palcos, depois de vários anos), Billy Preston, Leon Russel, Ravi Shankar, Eric Clapton, Ringo.
Dylan foi outro dos benefícios que George obteve após o divórcio Beatle, talvez tenha sido a posse mais preciosa, que ihe tocou na divisão de bens. 
O Concerto de Bangladesh foi revolucionário por vários motivos. Era a primeira oportunidade em que um astro do rock que se dedicava de forma tão activa a uma causa filantrópica e inaugurou uma nova forma de pensar.

O rock até esse momento era a revolução, o protesto, o não respeitar as regras. Não havia espaço para se dedicar a causas humanitárias. 
George não só se importou mas não quis ficar apenas pelo gesto e com a cobrança generosa para a sua causa nobre. Procurou produzir uma grande mais valia artística. E ele conseguiu. Ai está o disco e as filmagens para provar isso. 
Ao contrário do que acontece neste tipo de eventos em que somente a acumulação de celebridades importa, George procurou que houvesse uma unidade estilística e um conceito. Assim, a mão-de Phil Spector, recriado no palco do Madison a famosa parede de som do produtor com dois bateristas e quase uma dezena de músicos. 


O disco a solo que se seguiu manteve o mesmo alto nível. Living in the Material World. Mas, depois, a sequência, mostrou o nível dos álbuns a perder qualidade. Em 1974, foi o primeiro Beatle a fazer uma tournê, depois da última do grupo com as suas traumáticas acções de 1966 repletas de loucura, histeria e gritos.

O álcool e a cocaína tinham feito estragos na sua voz circulam na web gravações daqueles shows em que se pode verificar isso mesmo. Uma voz áspera, carente de harmonia, cansada, como se suas cordas vocais tivessem sido substituídas por uma serra eléctrica. A sua vida pessoal completamente desmoronada. Destruída. As críticas foram lapidares e George já não voltou a sair em tournê. Apenas fiz um breve tour no início dos anos 90 pelo Japão, na companhia de Eric Clapton que deu origem a um bom disco duplo.

Em Setembro de 74, sua esposa Patty Boyd trocou-o por Eric Clapton, que já tinha escrito para a esposa de seu amigo, aquele hino que é Layla. 
Paradoxalmente, Clapton e george Harrison, gravaram juntos uma versão de Bye Bye love.

Apesar do engano (que George tratou de remediar dormindo com todas as mulheres que com ele se cruzassem, entre elas Maureen, a esposa de Ringo) a amizade entre Eric e George não foi beliscada. Harrison não só foi convidado para o casamento de Clapton com Patty, mas tendo Ringo como baterista tocou para os noivos. Quando lhe perguntaram qual era o seu estado de spirito, George disse: "Prefiro que Patty esteja com um amigo, do que com alguém que não conheço".


Seu primeiro contacto com a Índia deu-se na metade dos anos 60. Com o seu entusiasmo arrastou os três restantes beatles para lá. Em seguida, aconteceu o episódio do Maharishi e o desencanto de Lennon e companhia. Mas George ficou ligado com a cultura hindu e sobretudo com a sua música. Estudou com Ravi Shankar e introduziu a sítar na música ocidental moderna.

Esse movimento fez com que os Beatles incorporassem instrumentos incomuns enas suas gravações e gravassem vários temas, com influências e melodias da Índia. 
Deles, talvez o melhor seja Within You Without You, que foi incluído no Sargeant Pepper, um tema extraordinário que muito tempo depois foi elogiado por John Lennon, mas as gravações só contaram com a presença de George, sem que nenhum dos outros três participassem.

O primeiro álbum solo de George, primeiro disco solo lançado por um Beatle, foi a banda sonora de um filme chamado Wonderwall. George aceitou a tarefa de compor a banda sonora do filme, pois era um veículo para dar a conhecer a música indiana e a obra de seu amigo e mestre Ravi Shankar.

Esta ligação com a Índia, intensificou a sua busca espiritual. Meditação, yoga, filosofia oriental, hare krishna. A questão se filtrava na sua música. Em My Sweet Lord, seu primeiro grande sucesso solo, os Hare Krishna e o aleluia se repetem e amontoam nos coros. 


Antes de continuar, vamos fazer uma pausa em My Sweet Lord: um super sucesso que teve outro escasso privilégio, foi o primeiro a perder um processo por plágio ("Plágio involuntário", disse o juiz) por seu inegável semelhança com He's So Fine das Chiffons.

Harrison conseguiu muitos anos antes de o movimento aparecer, conceptualizara, a síntese entre o rock e a música de outras latitudes. Essa pesquisa inovadora, essa fusão antecipou a world music. 

A sua vida espiritual, não incluiu sermões nem proselitismo, ou tentativas de pregar em cada ocasião pública que se lhe apresentava. Por sua vez, convivia com todos os prazeres terrenos. Uma grande colecção de carros, a mansão de 120 quartos, as drogas e as mulheres.

Enquanto editava discos que não tiveram a repercussão de outras épocas. também teve tempo para se dedicar à produção de cinema. Foi ele quem financiou, A Vida de Brian, a iconoclasta obra-prima dos Monthy Python. 
Eric Idle, integrante do grupo cómico e amigo de George, explicou: 
"George financiou-o porque queria ver o filme". 
Possivelmente, a entrada de cinema mais cara da história.

Em meados da década de 80, sua carreira teve um novo renascer com Cloud Nine, um grande disco pop, com produção de Jeff Lyne. 
Em When We Was Fab recordava, com carinho, os seus anos de Beatle. O cover de uma canção esquecida americana, Got My Mind Set On You, foi um grande hit cheio de guitarras alegres.



O passo seguinte foi o de juntar os Travelling Wilburys. 
Sempre que vários músicos com um certo nome e posição se reúnem numa banda denomina-se logo de supergrupo. 
Mas essa denominação, depois dos Travelling Wilburys: George Harrison, Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lyne, tem que ser selada, atribuída unicamente a este grupo. A verdadeira seleção. O legítimo super-grupo.

Na véspera da mudança de século, de 30 de Dezembro de 1999, um de seus piores pesadelos. Após o assassinato de John Lennon mostrou-se, não sem razão, muito preocupado com a sua segurança. Nesse penúltimo dia do século passado, um intruso com doenças mentais entrou na sua mansão e o apunhalou-o várias vezes. O seu Mark David Chapman, particular. Sua esposa Olivia dominou o atacante. George ficou gravemente ferido e passou vários dias no hospital. 

"Os Beatles existem para além de mim. Não sou o Beatle George. O Beatle é um fato, ou um traje, que uso de vez em quando. Mas até o fim da minha vida, as pessoas vão olhar para essas roupa e vão confundi-las comigo", disse.

Todos nós temos o nosso Beatle favorito. 
Não necessariamente deve ser uma decisão explicada, pode ser guiada por sentimentos e não por sólidas razões intelectuais. 
É um assunto do coração. 
Os que escolhemos George sabemos, pou melhor, estamos convencidos, de que a nossa decisão tem sólidos fundamentos racionais. É o nosso Super-Beatle. A sua liberdade, as suas músicas, o seu low profile, a sua busca e o seu sorriso despreocupado são os nossos aliados inexpugnáveis.

George Harrison morreu vítima de câncer, em 29 de Novembro de 2001.

(Matias Bauso/Pedro Bandeira).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A Sitara de George Harrison



Um dia, fui encontrar-me com George na sua pequena sala de meditação.

Logo de seguida, enquanto se sentava numa almofada colocado no chão atapetado com um bonito tapete de Kaschmir, George  pegou na sua sítara que começou a dedilhar.

Fiquei impressionado com a beleza requintada do instrumento. Tradicionalmente, as  sitaras tem sido a força dominante na música da Índia e do Paquistão.

A sitara, com um longo pescoço, tem origem no Sul da antiga Ásia.
È um instrumento de cordas, com uma grande cuia, tipo cabaça, que de facto é a caixa de som. Muitas vezes, tem uma pequena cabaça na extremidade superior do pescoço.

De uma rica cor castanho-avermelhado, a sitara de George é visualmente uma bela peça de arte em si e por si, com primorosos e intrincados embutidos de marfim, tendo de lado e na frente as 18 cravelhas de afinação.

Com cinco cordas melódicas, mais cinco ou seis cordas drone, que produzem um som baixo continuo sempre em tom sustenido, e entre nove a treze cordas de ressonância, as chamadas Sympathetic strings, que são cordas auxiliares.

A sitara tem um som, multidimensional que pode ser excitante e calmante, meditativo e do outro mundo, tudo ao mesmo tempo.

Musicalmente, George Harrison, enquanto solista foi não só magistral, mas também um dos pilares dos Beatle. Quando trouxe esta  sua paixão para o seio dos Beatles, deu inicio a uma transformação que eu acredito ter elevado o grupo, que passou de uma grande banda de rock 'n' rol, para uma força musical monumental, mágica, que não só perdura no século 21, mas também enriqueceu a essência da música popular  do final do século 20.

Paul Saltzman


N.B. - Pra esclarecer a diferença entre a sitar e a cítara
Sitar é um instrumento musical de origem indiana, que é da família do alaúde. É um símbolo da música da Índia.
A cítara é um instrumento de cordas, usado sobretudo na música tradicional, dos países de língua alemã nos Alpes e na Europa do Leste.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Paul McCartney - Egypt Station




Aos 76 anos, Paul McCartney é um daqueles artistas que poderiam estar vivendo de suas glórias do passado, de turnês intermináveis de grandes obras ou até só pelos royalties de seu trabalho como compositor. Mas desde o fim dos Beatles, ele aponta como um criador imparável, que busca estar antenado com seu tempo, como se esse fosse seu jeito de não envelhecer. O novo capítulo dessa busca é uma viagem através do mundo no álbum Egypt Station, lançado a 7 de Setembro de 2018.

Nos últimos anos, Paul aventurou-se a explorar novas praias, sonoridades e parcerias. Isso pode ser notado na reinvenção causada pela parceria com o produtor Nigel Godrich (Radiohead, Beck e Travis) no álbum Chaos and Creation in the Backyard (2005) e nas parcerias com nomes como Danger Mouse e Mark Ronson na criação do maravilhoso New (2013). Ou na busca por uma nova forma de criar no corajoso, porém mediano Kisses on the Bottom (2012) e nas recentes parcerias com Kanye West.

Criado em sessões com Greg Kurstin (conhecido por seu trabalho com Adele, Sia e Lily Allen), o álbum parece ter sido feito de um modo despretensioso, quase que por diversão. E Egypt Station brilha quando soa mais estranho. A dobradinha de “Caesar Rock” e “Despite Repeated Warnings”, quase ao fim, é um momento que poderia estar nos álbuns do Wings, nos anos 70.

“Come on to me” e “Who Cares” são grandes faixas de rock anos 70, prontas para o show ao vivo e casam muito bem com a criação recente de faixas como “Fine Line” e “Queeny Eye”. “Happy to You” é uma balada deliciosa e combina com “Hand In Hand”, momento mais delicado do disco e melhor faixa do álbum. A divertida “Fuh You”, única produzida por outro nome (Ryan Tedder, do OneRepublic), mostra que Paul poderia muito bem estar fazendo hits pop radiofônicos. Já a muito comentada “Back in Brazil” traz uma visão idealizada e um tanto estereotipada daqui e creio que, apesar do visível carinho do Paul pelo país, vai parecer muito mais interessante para os gringos.

Egypt Station soa como se Paul tivesse passado por esses diferentes lugares criativos nos últimos trabalhos, por diferentes estados de espírito e estivesse de “volta ao controle”, mostrando o mundo por seus olhos. Como ele mesmo disse em vários momentos da divulgação do álbum, cada canção é uma das estações que ele visitou, um mundinho à parte.

Talvez por isso, o novo álbum soe quase como uma compilação, como faixas separadas. Algumas parecem material de sobra do New; outras só uma volta ao lar, ao Paul clássico. Mas não vejo demérito nisso, Paul McCartney está tanto em outro nível que até sem se esforçar. Sem ir longe da sua zona de conforto, ainda assim é genial.



Daniel Corrêa

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O 5º Beatle


Billy Preston é o único musico que tem a particularidade de ser mencionado como co-autor de um dos temas dos Beatles.

Billy recebeu o cognome  de "o Quinto Beatle" apenas porque "o Terceiro Beatle" – George Harrison – tinha, para todos os efeitos anunciado que ia sair da banda e só iria voltar para o grupo se determinados critérios fossem atendidos.
Estava-se em janeiro de 1969, a apenas 11 semanas após a conclusão do controverso e aparentemente interminável álbum, Beatles (O Álbum Branco).
Durante as sessões, respirava-se uma atmosfera de total hostilidade entre os membros da banda. 
O arquivista dos Beatles Mark Lewishon descreve as causas dessa hostilidade invocando que a presença de Yoko Ono tinha destruído, não só a paz do grupo, mas sobretudo seria a causa de a liderança de Paul McCartney ter sido posta em causa, algo que George Harrison denunciou, durante um dos ensaios.
Para “ajudar”, um dia durante as sessões, Ringo Starr saiu e esteve muito perto de sair definitivamente da banda.
A combinação da mestria musical de Preston com a sua natural jovialidade, fizeram magia e ele foi creditado não só como autor do tema, mas teve sobretudo o mérito de conseguir unir a banda que estava despedaçada, que não conseguira resolver o problema da intromissão desse corpo estranho, imposto por Johnn Lennon, Yoko Ono de sue nome:.
Durante uma reunião no dia 26 de janeiro, surgiu a ideia de os Beatles realizarem uma actuação ao vivo, na semana seguinte, no telhado do edifício dos escritórios da Apple. Assim, por volta de meio-dia num dia frio e ventoso de Londres, mais propriamente a 30 de janeiro de 1969, com Preston nos teclados, os Beatles fizeram o que seria a sua última performance ao vivo. 
Billy Preston contribuiu com o seu bom gosto, uma mistura de soul e jazz nos acentos do seu teclado nos 42 minutos do show, destacando-se com o seu solo icónico no "Get Back". Um destaque muito especial.

Preston permaneceu perto de Harrison, e além de suas contribuições no Let It Be (bem como no filme Get Back) colaborou ainda no álbum  Abbey Road, e actuou com Harrison em 1970, no Concertos de caridade para Bangladesh. Preston também actuou nos discos gravados por George Harrison, Ringo Starr e John Lennon. Acabou por assinar contrato com o selo discográfico, da Apple, e gravou dois álbuns produzidos por Harrison: 1969 , That's the Way God Planned It e 1970, Encouraging Words.
Billy prestou uma ultima homenagem ao seu querido amigo George quando participou no concerto de homenagem, em 29 de novembro de 2002, o primeiro aniversário da morte de George Harriso. 
Em 2004, Preston declarou ao Chicago Sun-Times, que, musicalmente, o momento mais alto da sua carreira foi quando actuou com os Beatles no telhado do edifício da Apple em Saville Road.
Billy Preston faleceu em 6 de Junho de 2006.

Meredith E. Rutledge-Borger

sábado, 22 de setembro de 2018

Quando o Rock quis ser Jazz


Era un LP raro, comercialmente falando: vinha assinado por Al Kooper, Mike Bloomfield e Steven Stills, três músicos, naquele momento, sem grupo (provenientes, respectivamente, do Blood, Sweat & Tears, The Electric Flag e Buffalo Springfield).

A idéia veio de Al Kooper, teclista e cantor que tinha sido contratado pela Columbia como solista. 
Kooper propôs estrear-se com um disco simples e económico, uma colaboração com Mike Bloomfield, eloquente guitarrista com quem tinha já agendado a gravação do Highway 61 revisited dylanianoO conceito seria o estilo do selo Blue Note, juntarem-se para tocar, confiando nas afinidades, alternando temas alheios, com composições próprias.
Como faziam os jazzmen desde sempre, os músicos de rock começavam a desenvolver jam sessions; geralmente partiam do blues como língua franca. Até esse momento, as reuniões tinham um valor essencialmente social e terapêutico. Os resultados não se consideravam vendáveis e não foram publicados; ainda não tinha saído, por exemplo, o Electric Ladyland, de Jimi Hendrix. 
Kooper contratou então uma secção de ritmo e reservou dois dias de estúdio em Los Angeles. Imediatamente, surgiu a magia. Fortes temas de blues e soul mais uma ousadia: His Holy Modal Majesty, uma homenagem a John Coltrane, que havia falecido no ano anterior, com Kooper tocando um ondioline, teclado de toque exótico, e Bloomfield explorando escalas de raga com sua prodigiosa fluidez.
Capa de 'Super Session'
Capa de 'Super Session'


Tudo se complicou no dia seguinte. Bloomfield desapareceu, alegando problemas de insónia (na verdade, um vício em heroína que, a longo prazo, seria fatal). À beira do pânico, Kooper chamou Jerry Garcia e outros guitarristas que, imaginava, podiam lançar-se para a piscina. Finalmente, apareceu Steven Stills.
Para os que lembrem Stills pelas primorosas firulas vocais de Crosby, Stills & Nash, será uma revelação de sua vontade, no contexto de uma jam: dominava o folk-rock, como mostra na versão de It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry", de bob Dylan, mas brilha ainda mais nessa cronica de paranóia que é Season of the Witch, de Donovan, aqui sustentada por sua guitarra com pedal wha wha. E fica ainda mais ácido (ou seja, hendrixiano) no tópico seguinte, You Don't Love Me.
O disco resultante é habilmente repartido em dois : Kooper com Bloomfield na capa do primeiro; com Stills no segundo. Tinha truque, devo avisar. Como produtor, Kooper acrescentou estratégicos arranjos de metal que disimulaban deficiências e, caramba, funcionavam perfeitamente. A sua única derrapagem foi ousar com Man's Temptation", de Curtis Mayfield (frases longas e, além disso, não se encaixa com o resto).
Editada em 22 de julho de 1968, Super Session consiguio grandes vendas e foi libertador para os músicos de rock. Kooper tentou prolongar fazendo com Bloomfield, vários concertos que geraram discos ao vivo. Mas o guitarrista continuou lutando com seus demônios particulares e não prosperou. Na realidade, o mito de instrumentistas era perigosa como a moda dos supergrupos. Uma miragem baseada na aritmética simples de somar supostos génios de egos imensos.
Diego A Manrique no El Pais