quarta-feira, 29 de abril de 2015

Los Pacificos, da Casa dos Rapazes de Nova Lisboa




Socorrendo-me de um texto prévio do José Maria Coelho, o nosso querido mano Zé Grande, vou por aqui, ao correr da tecla, relembrar o como e o porquê da génese de uma das bandas mais carismáticas e mais queridas pela juventude Angolana, nas décadas de 60 e 70, sobretudo no planalto Huambino.

A Casa dos Rapazes do Huambo era, e continua a ser uma instituição educacional de referência. Além do estudo normal da época, aquela casa, formou grandes e competentes artesãos, dando ainda, aos dotados para tal, a possibilidade de estudarem e executarem musica.
Depois de competentemente formados na arte da leitura das pautas, os jovens mancebos, eram integrados na banda filarmónica, que desfilava consoante os pedidos dos organizadores de eventos religiosos e cívicos da cidade de Nova Lisboa, actual Huambo.

Essa experiência, abriu portas e deu asas ao sonho de um grupo de amigos, para quem aquilo de andar a soprar em tubas e clarins, e a martelar nas peles dos bombos, era uma verdadeira seca.

Como na altura, o Padre Antônio Ferreira da Silva, director da instituição, tinha autorizado uma das bandas da cidade, os Rebeldes, a ensaiar num armazém lá da casa, os putos, que deambulavam pela área de lazer, mal ouviam os primeiros acordes doas guitarras dos Rebeldes, corriam para as redondezas do armazém e penduravam-se nas janelas para ouvir na primeira fila, o Help!, o Can’t Buy Me love, e outros hits tão na moda nessa década, que os Rebeldes ensaiavam.

Corria o ano de 1968.

Foi então que o Zé Maria, ou melhor, os Zé Maria, porque eram dois, o José Maria Coelho, e o José Maria da Costa Ferreira, apoiados pelo Manuel Augusto Guedes,o Guedão, e pelo Rui Carlos Estevão, viram que estava ali a chave para a sua realização.

Formar uma banda, dar-lhes-ia a possibilidade de não só dar expressão ao seu talento, como também, ganhar alguns tostões, e  um passaporte para umas saídas aos fins de semana, que os libertaria da rigidez disciplinar do internato.
Porém o mais difícil, foi convencer os Padres a apoiarem o projecto e a financiar a compra dos instrumentos. È claro que, os rapazes, pacificamente, comprometeram-se a devolver o investimento, com o dinheiro que ganhariam nas actuações ao vivo que naturalmente teriam por toda a provincia do Huambo, e arredores.

Conseguido o apoio dos professores, foi só escolher o nome.
Entre muitos sugeridos, Los Pacificos, foi o que reuniu o maior consenso.
Para demonstrar a sua vontade, e a sua arte, o  grupo, fazia pequenas atuações sempre que se realizavam eventos no internato, utilizando uma viola muito antiga, que por lá apareceu o bombo da banda da Casa adaptado, e uns quantos chocalhos e umas pandeiretas, que eram utilizadas nas aulas de musica e de canto coral.


Ao núcleo fundador, juntou-se depois, o José Antônio Lopes Pereira como organista, e o Pedro Malagueta vindo das terras de Benguela. O Pedro Mesquita, ou melhor o Pedro Malagueta, revelou logo um enorme talento, para os sopros, ficando com o trompete, e com as vozes de apoio, assumindo mais tarde a vocalização a solo, graças á sua excelente voz soul, o que o levou a meter a trompete no saco, que por lá ficou até hoje.

O Agostinho Ferreira Pereira, entraria mais tarde a substituir o Guedão, que estava de malas aviadas para a tropa, assumindo a guitarra solo e o trompete.
Nesta altura já o grupo dispunha de um equipamento razoável adquirido ao empresário dos Rebeldes, que entretanto se haviam separado.

Com a ajuda e a influência do, Fausto Bordalo Dias, do Vicky Paes Martins, do António Matos, Manuel Luis, Ruy Chaves, e Carlitos, entre outros, o grupo começou a ensaiar os temas de seu agrado e em voga nessa época.

Apareceram os primeiros contratos, e desde logo uma total e devota aceitação por parte do público  que se deliciava com o Seating´On the Dock of The Bay, ou o Reflections of My Life.

Foram anos de muito sucesso de muita farra, e de muitos quilómetros percorridos pelo planalto do Huambo levando a sua arte aos mais recônditos lugarejos das terras de Angola.

Mas não se pode fugir ao destino, e chegada a hora da “tropa”, o Rui Carlos, o Zé Maria, o Bambino, o Guedão, todos, uns a seguir aos outros, lá receberam a sua guia de marcha para cumprirem o serviço militar obrigatório, fechando este capitulo fantástico das suas vidas, durante o qual deliciaram muitos fãs que por eles ainda hoje, nutrem enorme admiração e carinho.

Obrigado rapazes. Los Pacificos para sempre.

1 comentário:

Anónimo disse...

Vicky: conheço os integrantes de "Los Pacíficos", conforme os apresentou. Boa banda, muito talento. Aprendi um bocado de baixo com o Zé Maria e o Rui Carlos tocou e cantou com o "nosso" conjunto. Gostei da iniciativa de contar a historia dos conjuntos de Angola. É uma contribuição muito interessante para a "História de Angola", não só para os antigos, mas como referencia romântica e técnica para os musicos atuais.
Abraços
Jorge Araújo/Brasileiro