domingo, 5 de fevereiro de 2012

Restaurante "Os Telhadinhos" em Ponte de Lima, serve "Meias Quecas", e "Cociguinhas Feitas á Mão".


Uma tasca à moda antiga de Ponte de Lima ganhou uma inusitada popularidade a servir “putinhas”, “meias-quecas” ou “quecas cheias”, “fodinhas quentes” e “cociguinhas feitas à mão”, entre outros… petiscos. A proprietária faz até “muito gosto” em afixar o seu cardápio “picante”, com todas as letras, à porta do estabelecimento.

Lá dentro nada há, porém, de erótico ou de pornográfico, nem a dona da casa precisa de “pimenta na língua” para conter o aparente desaforo. Bem pelo contrário, o forasteiro “até desata a rir e acaba por entrar”, contrapõe Dona Márcia à nossa reportagem. O único “mal” que pode acontecer ao cliente mais ou menos “virgem” em orgias gastronómicas é sair de lá “tombadinho” por “putinhas” em excesso ou enfartado de “fodinhas quentes”.

Um sacerdote que costuma merendar na casa “aprecia-as muito”, garante-nos Dona Márcia. “Está tão habituado que já chega aqui e pede-me com à-vontade uma putinha e uma´fodinha quente!”, acrescenta à nossa reportagem.

A brincadeira começou há seis anos por iniciativa da proprietária, Márcia Correia, 44 anos, nascida no Brasil, mas a viver em Ponte de Lima desde criança. “Eu até não sou mulher de dizer palavrões. Só os digo uma vez por outra”, garante Dona Márcia, que chegou a ser dona de um restaurante em Ponte da Barca. Depois de ter aberto a tasca “Os Telhadinhos” em 2001, na Rua do Rosário”, no centro histórico de Ponte Lima, lembrou-se logo de apresentar aquele cardápio sui generis. “Afixei-o à porta, mas o meu marido não gostou da ideia, dizendo que as pessoas podiam levar a mal. Cheguei até a tirar esta emenda da parede. Mesmo assim fiquei triste, porque não via qualquer maldade. Depois enchi-me de coragem e voltei a pôr a ementa à vista de toda a gente. As pessoas acharam graça e hoje o meu marido está todo contente pelo bom acolhimento da ideia”, recorda Márcia Correia.

A tasca ganhou fama e o seu cardápio já corre mundo.”Chego a receber excursões de galegos. Muitos telefonam -me com antecedência só para encomendar os petiscos”, garante Dona Márcia. O programa de humorista brasileira Jô Soares na TV Globo também já a divulgou com destaque. Atraiu até as atenções de inspectores da ASAE que estavam em gozo de folgas e que lá foram ver a novidade das agora afamadas “fodinhas quentes”.

“Aqui em Ponte de Lima está a gerar um gozo miudinho. Tornei-me conhecida e a admirada pelas pessoas de cá, que me felicitam pela ideia”, diz Dona Márcia.

Aos fins-de-semana, o estabelecimento “está sempre cheio”. No Verão, é muito procurado por grupos que “trazem concertinas”, conta a nossa interlocutora. “Quando desatam a tocar, isto enche-se de gente. Nessas alturas, a maior parte das pessoas fica lá fora à espera que lhe sejam servidas as fodinhas quentes e ou outros petiscos”, esclarece.

A tasca vacila entre o modesto e o limpo, mas é apertada de espaço. O mobiliário resume-se a uma mesa meia-comprida e a outra mais pequena, além de um balcão rústico.
 
Os clientes já conhecem de “cor e salteado” os nomes brejeiros de todos os petiscos que se servem na tasca “Os Telhadinhos”. “Ora saiam-se três putinhas!”, pediu um comensal, quando estávamos à conversa com Dona Márcia. “Está a ver…é assim que pedem”, exemplifica-nos a proprietária, com um certo ar de orgulho. De pronto, Dona Márcia pôs em cima do balcão três tigelinhas de vinho verde tinto de lavrador. “São as putinhas…”, esclarece a nossa interlocutora. “A meia-queca é uma tigela de vinho de tamanho médio. As maiores de todas são quecas-cheias de … vinho”, explica-nos. E a “Fodinha Quente?” perguntámos. “Ah, isso é uma patanisca de bacalhau…”, adianta. Dona Márcia não gosta muito de dizer o nome verdadeiro dos petiscos que rebaptizou com a sua criatividade brejeira. “Quero criar o efeito – surpresa. É mais engraçado revelar o tipo de petisco, quando o cliente, por curiosidade, o pede pelo nome que lhe dei”, justifica.
 
A tasca “Os Telhadinhos” serve quase todos os petiscos tradicionais do Minho. “Os nomes estão tão vulgarizados que achei interessante dar-lhes outros que enchessem o olho e o ouvido. As pessoas já se habituaram a ver em todo o lado pataniscas ou lulas recheadas. Se mantivesse os nomes, não lhes chamavam tanto a atenção. Da forma como os rebaptizei acabam sempre por querer saber o que é. Depois, com a galhofa, decidem provar, o que é o mais importante para mim, pois os petiscos que faço têm outro toque de classe”, explica – nos Dona Márcia. E o qual é, então, o “toque de classe” que ela dá à sua “fodinha quente”? “São pataniscas à moda antiga, daquelas que se faziam, noutros tempos, no Minho, para servir como merenda aos senhores padres, nos intervalos dos confessos, durante a Quaresma. Levam muita salsa traçadinha e cebola picadinha. E mais não digo, porque é segredo”, responde. Dona Márcia garante que tira horas ao sono só para encontrar nomes eróticos para outras especialidades da gastronomia minhota. 

“Estou sempre a inventar, mas os nomes que arranjo condizem com o aspecto do petisco. Por exemplo, o “Perigoso na racha” é a isca de fígado num pão aberto. Petisco que comece a servir aqui nunca escapa à minha imaginação. O último foi o “Caldo à Puta Pobre, que é segredo da casa”, adianta. A velha “Punheta de Bacalhau” passou a chamar-se “Cociguinhas feitas à mão” na tasca “Os Telhadinhos”. “O nome de punheta deixou de ter piada para o bacalhau desfiado”, justifica Márcia Correia. Um cliente concordou, gracejando até que, nesta tasca, “a punheta é mais cara que a fodinha quente”.

“A “fodinha quente” só custa 70 cêntimos, enquanto as “cociguinhas feitas à mão” servem-se a 10 euros”, lembra o nosso interlocutor, sem se queixar da diferença de preços. “A punheta dá mais trabalho, por ser necessário desfiar o bacalhau”, acrescenta.
 
Entre muitos outros petiscos, Dona Márcia serve ainda “Biquinhos de Amor”, “Corno na racha”, “Sacola de Reformado”, “Chupões na racha”, “Saquinho Cheio”, “Mamadeiras Quentes”. Só diz o que é “tudo isso” a quem lá for consumir. À nossa reportagem explicou, ainda assim, que a “sacola de reformado” é… a lula recheada. “Por fazer lembrar a “sacola” dos velhos”, graceja. Só o filete de peixe ainda espera por nome mais catita na cabeça de Dona Márcia.

1 comentário:

Mário Lima disse...

Como nortenho que sou, tenho que reformular todo o meu vocabulário relativamente ao cardápio da dª Márcia. Veio do Brasil 'descobrir' nomes, que sendo pertença das vozes do povo do norte, nunca tinham sido afixados à entrada de uma tasquinha.


... E as velhas pataniscas 'transformam-se' em "fodinhas quentes".

Brilhante!