terça-feira, 29 de novembro de 2011

George Harrison: Living in the material world

Completam-se hoje, 10 anos sem George Harrison, que morreu em Los Angeles aos 59 anos, vitima de um cancro. Nada melhor, para lhe prestar homenagem, do que assistir ao "Living in the material world", documentário de Martin Scorsese, sobre a vida do mais novo e mais tímido Beatle.

"Living in the material world" (2011) não consegue chegar ao mesmo nível de outros documentários musicais de Scorsese. O filme sobre a vida do Beatle mais novo parece em alguns momentos ter ficado preso a necessidade de agradar aos beatlemaníacos (afinal, somos chatos e temidos!) e de corresponder às expectativas da produção.

A ideia do filme partiu da viúva de George, Olivia Harrison, produtora executiva de "Living in the material world". Durante anos, Olivia vinha juntando relíquias, como o diário do marido, cartas e cartões postais trocados com a família e amigos, alguns vídeos caseiros e diversas entrevistas de George na televisão. Depois de assistir a "No direction home": Bob Dylan (2005), documentário que cobre toda a carreira de Dylan, ela encontrou-se com o realizador do projecto. Convite feito, Scorsese assumiu a missão. As filmagens que levaram pouco mais de dois anos para serem realizadas, resultaram numa produção de três horas e meia, dividida em duas partes. Seguindo um roteiro linear, Scorsese monta o seu filme com as imagens de arquivo cedidas por Olivia, trechos de entrevistas da Antologia dos Beatles, entrevistas com as duas esposas, amigos de diversas fases da vida de Harrison, usando como passagem trechos de cartas e do diário de George, lidos pelo filho Dhani. Se só legitimamos nossa existência pelas histórias que vivemos, são elas que aqui vão desvendando quem foi George Harrison nesse pobre mundo material.

A primeira parte do filme é dedicada a história dos Beatles. Scorsese cobre desde as reuniões dos Quarrymen nas casas dos integrantes até ao fim da banda. Porém, entrevistando os dois irmãos de George, o realizador perde a hipótse de aprofundar a infância do guitarrista ou de descobrir histórias ainda não gravadas com os amigos de Liverpool, e acaba indo pelos caminhos que outros documentários já seguiram antes. Depois de Anthology, é difícil encontrar histórias ainda não contadas sobre os Fab Four. Durante os primeiros 90 minutos de filme temos a impressão de que estarmos a ouvir mais sobre Lennon e McCartney do que sobre o próprio George. Mas, se em "No direction home" Scorsese conseguiu criar um tratado sobre a história dos Estados Unidos e da sua música, usando a carreira de Dylan como condutor, aqui os factos históricos (como a Inglaterra em recuperação no pós-guerra) ficam quase apagados no pano de fundo e vemos a repetição de episódios já bastante explorados, como a polémica em torno de uma declaração de John Lennon sobre Jesus Cristo. Na segunda parte, porém, Scorsese parece encontrar o seu caminho e o seu alvo: a busca espiritual de George. É a partir daqui que George conquista o seu próprio filme.

George era o beatle tímido. Era introspectivo, mas tinha senso de humor tipicamente britânico e não economizava as suas piadas (numa cena brinca: “quantos Beatles são necessários para trocar uma lâmpada?”, depois de alguns segundos, rindo, responde: “quatro!”). Era generoso, por vezes ingénuo (como no episódio que convidou todo o grupo dos Hell’s Angels para visitar a Apple), mas também era ambicioso o suficiente para lutar por seu espaço dentro da banda. Foi músico, escritor, produtor musical, o primeiro músico a organizar um show beneficiente (Concert for Bangladesh), produtor de cinema e até arriscou algumas participações como actor. A história de como George foi parar nos negócios da sétima arte, revela muito sobre quem ele era.

Numa das várias lembranças que divide sobre o amigo, Eric Idle, do Monty Python, conta que o grupo estava produzindo "Life of Brian", com a EMI, quando depois da primeira leitura do roteiro, a produtora cancelou tudo, dizendo que não poderia ajudar aquele filme “difamatório” a chegar ás salas de cinema. O filme parecia condenado. Nas conversas por telefone com George, Idle só ouvia: “vamos encontrar uma maneira”. Um dia, o humorista recebeu uma ligação. Do outro lado, estava Harrison empolgado: “Achei uma solução. Vamos criar uma produtora!”. Para levantar os 4 milhões de dólares necessários para financiar a produção, George hipotecou a própria casa e salvou aquela que viria a ser a obra-prima dos Monty Python.

Pelos depoimentos dos amigos, e da própria esposa Olivia, descobrimos que Harrison viveu os grandes relacionamentos de sua vida em suas amizades. Segundo a viúva, os versos de "I’d have you anytime", do álbum All things must pass (1970), onde George diz “let me know you”, foram escritos para Bob Dylan. Apesar de os dois passarem muito tempo juntos, George ficava preocupado porque Dylan não revelava muito os seus sentimentos.

O caso mais conhecido, um dos episódios que melhor expressa o valor que Harrison concedia aos seus amigos, é a relação que ele teve com Eric Clapton. O filme fala sobre as viagens, composições e gravações que os dois dividiram, e abre bastante espaço para que Clapton fale abertamente sobre como “roubou” a mulher de Harrison. Entre as entrevistas do autor de Layla, e da própria Pattie Boyd, entra uma declaração de George, numa conferência de imprensa, pouco antes de começar a sua primeira tourné a solo. Os jornalistas perguntavam o que ´que ele achava de Clapton, como estava a relação dos dois. George, rindo da situação, calmo responde que não tinha que ter raiva de Clapton. Um dos jornalistas insiste, dizendo que ele deve estar chateado com tudo o que aconteceu. George apenas sorri e diz que se Pattie tinha que estar com outro, melhor que fosse com Clapton.

Claro que apesar da calma aparente, George Harrison não foi nenhum santo. Scorsese traz esse lado B, que também fazia parte de quem ele foi. A sua busca pela espiritualidade, seguindo o Maharishi ou praticando cítara com Ravi Shankar, mostrava um homem perdido nas suas próprias contradições, num mundo que se calava diante das suas perguntas. Scorsese aborda com entrevistas e trechos de depoimentos do próprio músico a questão das drogas, que muitas vezes colocou Harrison na primeira página dos tablóides. Olivia fala sobre um George mulherengo, que muitas vezes ela ignorava para manter o seu casamento, revelando que o segredo da sua relação era “não ser muito honesta”. Yoko conta que a sinceridade do guitarrista podia, às vezes, machucar as pessoas.

Mesmo Scorsese cobrindo toda a carreira e quase toda a vida de George (até o atentado que ele sofreu no final de 1999, dentro de casa) quando chegamos ao fim do filme, ficamos com a sensação de que muitas coisas poderiam ter sido melhor exploradas nas mais de três horas de filme. Os Traveling Wilburys (banda de Harrison com Tom Petty, Roy Orbinson, Jeff Lyne e Dylan), as participações de George em programas como o The Rutles (paródia dos Beatles criada por Eric Idle), o Concert for Bangladesh, o seu trabalho a solo. Ele é um dos Beatles, mas foi muito mais do que isso depois que a banda terminou. George assumiu a sua própria identidade enquanto músico e tornou-se numa referência. Além disso, enquanto produto de cinema, "Living in the material world", não carrega a assinatura de Scorsese. É um documentário bastante clássico, feito basicamente em cima de arquivos, com planos fechados nos entrevistados, sem muita movimentação de câmera, ou fotografia e enquadramentos diferenciados. Se o director foi ousado com "Shine a Light", "The last waltz" ou nos episódios que dirigiu na série "The blues", aqui temos um Scorsese mais contido, que não corre riscos.

Porém, temos que reconhecer que apesar de não ter as marcas que afirmaram Scorsese como realizador, "Living in the material world", tem os seus méritos. Leva-nos ao mundo onde George Harrison trata do próprio jardim, convida os amigos para chávenas de chá, sessões de filosofia (in)voluntária e dá grandes respostas a perguntas estúpidas em programas de auditório. São três horas onde podemos experimentar diferentes emoções: George faz-nos rir, os depoimentos dos amigos emocionam-nos (especialmente quando Ringo conta sobre o último encontro dos dois), e nós cantamos as músicas, desejando poder ter conhecido George Harrison. No fim, críticas ou frustrações á parte, confesso que o documentário acabou entrando na minha lista de filmes para rever algumas vezes vida afora. Porque a gente pode sim ficar feliz só por dançar com George Harrison…

Por Fernanda Canofre dos Santos

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