segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Álbum Bridge Over Troubled Water , de Simon & Garfunkel, terá edição especial em Março


O último disco de estúdio de Simon & Garfunkel, Bridge Over Troubled Water, terá uma versão de luxo para comemorar a passagem dos 40 anos, da data da sua primeira edição.
Este foi o último álbum de estúdio gravado pela duo. Sairá numa box acompanhado de DVD e encartes especiais

A edição especial chega ao mercado em 8 de Março. O CD, contendo as 11 faixas do original, é acompanhado por um DVD. Este último traz um documentário actual, no qual os dois integrantes falam do trabalho e da sua produção, e o programa especial, gravado para a televisão Songs of America, exibido pela CBS em Novembro de 1969, que não voltou a ser exibido ou colocado à venda. O programa de uma hora e mostra imagens dos dois, em estudio, enquanto gravavam, em espectáculos e em tournée.

O conteúdo da caixa também estará disponível em formato digital. A sua versão física contará com um encarte colorido, de 24 páginas, com fotos raras de Paul Simon e Art Garfunkel, além de textos sobre a produção do álbum e o guião de Songs of America (este último escrito por Anthony DeCurtis).

Simon e Garfunkel gastaram mais de dois anos e 800 horas para gravar, o Bridge Over Troubled Water. O esforço valeu a pena, já que o disco chegou ao primeiro lugar das listas de vendas, e a faixa título do álbum, venceu cinco prêmios Grammy, algo inédito até então.
É esta a tracklist do CD e do DVD.

CD:

1- Bridge Over Troubled Water
2- El Condor Pasa (If I Could)
3- Cecilia
4- Keep the Customer Satisfied
5- So Long, Frank Lloyd Wright
6- The Boxer
7- Baby Driver
8- The Only Living Boy in New York
9- Why Don't You Write Me
10- Bye Bye Love
11- Song For the Asking

DVD:

Songs Of America (originalmente exibido na rede CBS em 30 de Novembro de 1969) e The Harmony Game: The Making of Bridge Over Troubled Water

domingo, 30 de janeiro de 2011

The Who - Quadrophenia


Estamos em Londres no ano de 1964, ano de mudança e convulsões a nível musical e a nível de grupos do qual fazem parte os jovens.

Jim, um jovem como muitos outros, que vive numa Londres que sofre mudanças e alterações assim tenta fazer-se notar quer entre os amigos, pais, e os que o rodeiam. Ele e os seus amigos, vivem num ritmo de música, festas e alguns speeds à mistura. A música de Gene Vincent para Jim é uma velharia para o Kevin Herriot nem por isso.

Kevin é um Rocker, veste de cabedal e anda de mota, Jim é um Mod veste casaco (manda fazer à medida) calças de ganga ou à boca de sino com Parka verde, anda de scooter.
A scooter é algo muito importante e a sua aparência é alterada e novos adereços são colocados a gosto de cada um.

Ken e Jim são amigos, mas com ideias e comportamentos diferentes. Rockers e Mods são rivais e deste modo alguns confrontos e atitudes mais agressivas vão se notar ao longo do filme.

Para além do mundo que vive basicamente ao fim da tarde até à noite – Mods – Jim trabalha numa empresa onde aí tenta entrar e viver no ritmo a que é obrigado e não aprecia lá muito, apenas apreciando o dinheiro que aufere quando a altura de receber chega.

Steph é uma rapariga que trabalha num supermercado, e por quem Jim vai começar a sentir alguma atracção e de certo modo será a pessoa que irá ajudar a desencadear bons ou maus comportamentos e atitudes por parte de Jim.

Spider é um dia atacado por um grupo de rockers, deste modo os Mods vão procurá-los para se vingarem, no seguimento disto quem encontram são dois rockers que nada tiveram a ver e irão ser culpabilizados de tudo, um dos rockers é Ken. No seguimento de mais uma noite cheia de “confusões” a chegada a casa é recebida com uma discussão com o pai.

Chega o grande dia, a ida ao festival de Brighton, Mods e Rockers todos se encaminham para lá, um grande número de pessoas é esperado, por lá os últimos preparativos são feitos.

Chega a noite e com ela Ace, um Mod que se diferencia dos outros quer pelo modo de dançar, vestir e a própria scooter, Jim para dar nas vistas um pequeno distúrbio irá provocar do qual resulta a sua expulsão, indo deambular pela praia. No final da noite um local para dormir procuram, depois de muito procurarem um sítio encontram, na manhã seguinte dão conta que dormiram no meio de um grupo de Rockers.

Iniciou-se o dia e inicia-se também uma manhã algo conturbada, Jim em conjunto com Setph começam a cantar “we are the Mods” e a encorajar outros Mods, daí resulta um grande confronto entre Rockers que culmina com a polícia. No final prisões, nódoas negras. A chegada a casa irá ser com uma discussão com a mãe, à noite será confrontado com o pai o qual o pôe fora de casa.

Começa aqui o descambar de Jim, começam aqui as suas atitudes a tornarem-se mais agressivas e ofensivas, começa também algum desentendimento com os amigos, não só pelo seu comportamento mas também por causa Steph. Será aqui também que Jim começa a achar que a sua vida não segue em frente, bem pelo contrário.

Será nesta altura que aquilo que para ele foi um modo de vida, Mods culminando com Brighton, para Steph e os outros amigos foi um gozo uma passagem, será também o confronto derradeiro com Steph.

Continua a espiral de acontecimentos que vão levar Jim a continuar a não entender e perceber para onde deve ir. É no meio de toda esta confusão de pensamentos que vê a scooter de Ace e Ace.

Rouba a scooter levando-a por estradas de campos verdes até ao mar, aí acelera ao longo da costa e do princípio que termina na ondulação marítima e nas rochas, …. uma scooter destruída nas rochas.

Um filme que marca uma época, um modo de vivência, e modos de pensar; um filme também que nos mostra que a juventude foi, é e continua a ser rebelde e irreverente, durante todo este precurso somos acompanhados ao som dos The Who.

Título Original:
"Quadrophenia" (1979)
Realização:
Franc Roddam
Argumento:
Dave Humphries & Martin Stellman
Actores:
Phil Daniels - James Michael 'Jimmy' Cooper
Leslie Ash - Steph
Philip Davis - Chalky
Mark Wingett - Dave
Sting - Ace Face


® Ângela Mateus

sábado, 29 de janeiro de 2011

Victor Gomes. As sete vidas do Gato Negro


Por ser um documento importante para a história do Rock em Portugal, transcrevo esta entrevista publicada hoje no I.
Victor Gomes, será sempre um marco de referência, para todos os músicos e amantes da musica que se fazia nos anos 50 e 60, aqui em Portugal.
Ele e, sim, o Pai do Rock, em Portugal.

"Aos 17 anos Victor Gomes e dois amigos saltaram para um cargueiro atracado no porto de Lourenço Marques com destino à América. Esperavam que a sua magra dose de mantimentos (atum e pão) os aguentasse escondidos na casa das máquinas até chegarem à terra do rock''n''roll, Elvis e Marylin Monroe. Quatro dias depois a comida terminava e o navio ainda não tinha passado a costa oriental de África. Victor lidera então uma sortida nocturna à cantina do navio, mas é apanhado. Entregue à polícia da Cidade do Cabo, terminava ali a busca do sonho americano do homem que viria a ser o rei do rock, do twist e do ié-ié em Portugal - ou rei do gado na Rodésia. Mas começa uma sucessão de histórias reais de resistência, coragem e sorte. O líder dos Gatos Negros fala de cada uma das suas sete vidas e lembra a Lisboa que desaparece hoje com o fecho do Maxime, onde é cabeça de cartaz. Uma história de vida que será em breve alvo da biografia devida ("Victor Gomes - o Mais Negro dos Gatos", de José Rodrigues Cardoso) e um documentário feito por Paulo Furtado, o Legendary Tigerman.

Vida 1: Lisboa-Moçambique (1940-1963)

Lembra-se de quando ouviu rock''n''roll pela primeira vez?

Estive em Namaacha, Sul de Moçambique, no colégio interno dos Salesianos, até aos 15 anos. Costuma dizer-se que o pássaro que está na gaiola, assim que vê a porta aberta desata a voar e ninguém o apanha. Foi o que aconteceu comigo. Estive oito anos fechado, sem ver o meu pai ou a minha mãe, e quando saí fui lançado para Lourenço Marques. Ia para o cais onde atracavam os grandes navios norte-americanos, cheio de bares e marinheiros à procura de meninas. Nesses bares havia jukeboxes e a música que saía de lá era rock''n''roll. Eu lá tentava dançar aquilo.


E como começa a sua carreira?

Havia um concurso no Radioclube de Moçambique chamado "À Procura do Caloiro do Rock". A malta pressionou- -me, "ó Vítor, tens de ir, tu tens o feeling, man". Fui a pensar "seja o que deus quiser" e ganhei. Tinha 17 anos, estava lançado. Mas depois lixei-me.

O que é que aconteceu?

As pessoas vinham ter comigo e perguntavam: "ó Vítor, quando é que tu te casas?" E eu nada, nem pensar! Naquela altura namoradas não faltavam, ui [Aponta para o céu: "Posso dizer, ó tu aí em cima? Posso?"] Eu era um puto que tinha muito bom ar [Aponta para o céu outra vez: "Não me leves a mal, mas estas verdades têm de se dizer"]. Bom, mas quando menos se esperava casei. Dezoito anos e uma filha a caminho, ai meu deus...

Foi um escândalo?

Eu fiquei muito abatido e em Lourenço Marques não se falava de outra coisa: "O Victor Gomes casou!" E as minhas ex- -namoradas todas a roer os dentes, tão tristes, coitadinhas. Eu fugi.

Fugiu?

Ah, pois fugi. Fui para o Norte, para perto de Nampula, onde estava a minha mãe.

E como vivia?

Fui caçador. Matava búfalos e outros bichos grandes. Passava dias no mato, isolado. Eu sou como o pardal, preciso de andar à solta. Mas depois, em 1961, comecei a ver os perigos das independências, a descolonização que começava no Norte de África e pensei em pirar--me. Decidi voltar à vida artística.

Vai para onde?

Angola, para ganhar rodagem e cabedal. Aquilo lá tinha algum profissionalismo, em Moçambique era tudo amador. O meu empresário era o Luís Montez, pai do outro Luís Montez [da promotora Música do Coração], que é genro do Cavaco. Depois lá vim para Portugal.

Sei que foi pugilista lá em Moçambique.

Sim, mas estejam à vontade, cavalheiros [arregaça as mangas e brande os punhos], deixem-se estar que eu não faço mal [risos]. Eh pá, fiz uns combates. O que eu era mesmo bom era no hóquei, fui um grande hoquista - dos melhores de Moçambique. Também joguei futebol com o Eusébio no Sporting Clube Lourenço Marques em 58/59. Mais tarde estive no hóquei em Portugal, no Benfica. Ah, e também joguei ao berlinde, levei tanta porrada no berlinde [risos].

Estudou num colégio católico. Portava-se bem?

Ui, se portava! Andava sempre com o cabelo rapado!

Porquê?

Era assim que nos castigavam e eu portava-me mal, era muito rebelde. Não podia, e ainda não posso, com as injustiças.

Vida 2: Angola-Lisboa (1963-1967)

É a primeira estrela rock portuguesa?

Nem pensar. Quando cheguei a Portugal, em 1963, já havia o Zeca do Rock, o Joaquim Costa, o Nelo do Rock, o Joaquim Conde. Mas não cantavam o rock original, cantavam umas coisas em português. [Começa a cantar] "É fado, é fado ro-que, é fado, é fado ro-que." Eu vinha de Moçambique, onde estava mais exposto à língua. Aprendi porque vivia perto da fronteira com a Suazilândia, que na altura era dos ingleses.

Então foi o primeiro a cantar em inglês?

Isso fui. Bom, havia um, mas cantava umas baladas, o Daniel Bacelar. Mas agora o rock, o verdadeiro rock, fui eu. E fui eu que trouxe a energia do rock, a rebeldia e os blusões de cabedal pretos, à americana.

Foi chegar, ver e vencer?

Nada disso. Durante três meses fui todas as noites para o Parque Mayer. Ficava lá só a beber um cafezinho - não podia mais porque tinha de pensar na pensão de alimentos da minha mulher e filhas -, até que por sorte apareceu o João Maria Tudela e me falou de uns tipos da Trafaria, os Gatos Negros.

Foi ter com eles?

Ele disse que não eram grandes músicos, mas tinham garra e eram rebeldes. Fui logo à Trafaria, à sala dos bombeiros onde eles ensaiavam, com umas fãs à porta e tudo. Cheguei ao palco com a minha maneira de andar e o meu estilo e pedi para falar com os músicos: "Ah, sou cantor e tal, venho de Moçambique." Mandaram-me subir para o palco e cantei com eles o "Jailhouse Rock", do Elvis. Olha, foi amor à primeira vista.

E como vieram os primeiros concertos?

Tocámos num concerto de beneficência por causa de um bailarino, o Freddy, que estava doente. Fui ter com o organizador, que ,sem nos ouvir [aponta o dedo para cima de novo: "Obrigado senhor"], nos dá uma chance. Logo a seguir fui contratado pelo Vasco Morgado, o grande empresário.

O rock ''n'' roll sempre foi visto como um género rebelde . Nunca teve problemas com a PIDE?

Vou começar por dizer isto: o que hoje é o Pavilhão Atlântico era naquela altura o Pavilhão dos Desportos, agora Pavilhão Carlos Lopes. Quem enchesse aquilo, cuidado. Eu enchia sempre. Acontece que um dia, num daqueles festivais de rock e twist onde eu já nem entrava porque ganhava sempre tudo - mas era obrigado a actuar porque a malta nova queria ver-me -, o Vasco Morgado vira--se para mim e diz: "Prepara-te que vou meter os vossos instrumentos na Praça do Saldanha. Vocês vão actuar lá fora." E assim foi. Montou-se um palco lá fora e enchemos aquilo, até havia pessoas em cima das árvores, o trânsito todo parado, uma loucura. Milhares e milhares de pessoas ali no Saldanha. Se naquela altura nos Restauradores ou no Rossio meia dúzia de malta junta era expulsa pela PIDE, como é que aquilo foi possível? Eu explico.

Explique.

Antes do concerto fui chamado ao gabinete do Vasco Morgado, onde estavam três pides à minha espera. Disseram: "Vítor Gomes, o menino não vai cantar canções de protesto." Respondi, "Eu!? Eu quero é rock!" E foi assim.

No auge da fama conseguiu ganhar muito dinheiro?

Em 63 assinei contrato com o Vasco Morgado a ganhar cinco contos por mês e cada um dos Gatos Negros fazia dois contos e quinhentos. Fora as actuações que fazíamos ao fim-de-semana, que ganhávamos à parte e descontávamos mais tarde ao nosso agente - eu às vezes esquecia-me de descontar [risos]. Isso na altura era muito dinheiro. Para ter uma ideia, um médico ganharia cerca de 700 escudos por mês. E tinha um apartamento pago no Saldanha pelo Vasco Morgado. Era a máquina de fazer dinheiro dele.

Tinha uma boa vida?

Deitava-me às sete, oito da manhã, levantava-me à noite. Mas trabalhava duro. Havia duas sessões à noite no teatro da revista, com um intervalo para comer. Acha que íamos comer bifes? Não. Íamos para as tascas das Portas de Santo Antão comer passarinhos fritos e beber vinho.

E como acabavam essas noites?

Íamos para as boîtes, para o Cais do Sodré, sítios como o Texas Bar ou até casas de fados.

Cantava o fado?

Um bocado, lá à minha maneira, porque sou filho de uma fadista e a minha tia, que ainda é viva, também era. Todos os portugueses cantam o fado [começa a cantar "Só Nós Dois é Que Sabemos", de Tony de Matos] .

Fez um bom pé-de-meia?

Com 20 e tal anos? Era chapa ganha chapa gasta.

Vida 3: Artista residente no Maxime (1967)

Como era a noite na capital nos anos 60?

Ah, em Lisboa nessa altura não havia sítio nenhum na noite que não tivesse bailaricos. Estou a falar de conjuntos de baile, bandas mesmo, não era cá DJ. Veja só como era aquela zona de Lisboa naquela altura: tínhamos logo o Parque Mayer, que era aquela loucura toda de teatros e restaurantes. Tínhamos na esquina do Parque, como quem vai para o Maxime, um restaurante bom, que era o Galo, e que na cave tinha uma boîte, a Cave do Galo. Depois ao lado havia um restaurante muito grande que fechava às duas da manhã, chamado Águia - que agora é uma casa de bilhares. Depois do Maxime havia o Fontória, logo ao lado era aquele sítio do jazz, ai como se chama?, o Hot Clube. E já para não falar do Ritz, ali mais ao fundo. Bom, aquelas ruas à noite uma pessoa quase que não se podia mexer, era um mar de gente.

E como acabava a noite?

O Maxime fechava às cinco da manhã, mas antes, lá pelas quatro, abria um sítio ao lado da bilheteira do Parque Mayer chamado Cantinho dos Artistas. A essa hora iam para lá os artistas de todos os teatros e salas de espectáculo das redondezas para comer o seu bitoque e dançar com as namoradas com um conjunto a tocar. Aquilo era lindo e o Otelo nunca disse nada. E agora pronto, vão dar cabo daquilo porque querem fazer ali uns escritórios.

É um recordista de concertos naquela sala.

Eu sou o artista com mais concertos no Maxime. Desde que reabriu, em 2006, e antes disso, nas outras vidas dele. Nos anos 60, mais especificamente em 1967, estive no Maxime sete meses consecutivos como atracção principal. Foi na altura em que tinha acabado com os Gatos Negros e andava a fazer filmes - fiz três. Cantava os clássicos: Elvis, Sinatra, Tom Jones.

Vida 4: Lisboa-África (1967-1985)

Entretanto, em 67, desaparece do mapa. O que andou a fazer?

No dia 28 de Dezembro de 67 deixei Portugal. Fui a pedido da Cruz Vermelha Portuguesa e do Movimento Nacional Feminino, aquelas senhoras que durante o Ultramar escreviam cartas aos soldados, as madrinhas de guerra. Fui para Angola e Moçambique cantar para as tropas.

Porquê?

Porque a mim aquilo tocava-me. A guerra e os rapazes todos metidos naquilo. Além disso queria voltar a Moçambique porque lá as pessoas tinham vontade de rever Victor Gomes, o Rei do Rock. A ideia era ficar lá dois, três meses, e voltar à base, mas acabei por ficar.

Abandonou a vida artística?

Fui para a Rodésia [actual Zimbabué], onde montei uma quinta de criação de gado. Estive no Quénia, na África do Sul, no Botswana, na Namíbia, em todos aqueles países de Angola para baixo.

Estava lá quando o Mugabe foi para o poder e começaram os problemas.

O meu dinheiro estava no banco e os bancos eram controlados pelo Mugabe, não podia tirar de lá o que queria. Nessa altura tinha dupla nacionalidade e um passaporte zimbabueano. Felizmente consegui arranjar um outro passaporte português e comprar uma viagem de ida e volta pela TAP. Atenção, ida e volta. Ninguém sabia lá que eu ia fugir para além de uma miúda inglesa com quem eu andava e um amigo meu, o Richard. Tinha medo de ser denunciado. Ora esse passaporte tem o carimbo de saída: dia 1 de Abril de 1985.

Trouxe alguma coisa?

Andei metido no negócio das esmeraldas e ainda consegui trazer meia dúzia delas, pequenininhas mas puras. Escondi-as num fecho éclair que pus no cinto.

E como foi no aeroporto?

Despachei as malas e fui para o bar do aeroporto beber. Bebo sempre uns copos antes de andar de avião porque tremo muito - é para relaxar. Deixei-me ficar no bar até que me chamassem para o avião. Porquê? Porque eles lá na alfândega revistavam toda a gente a pente fino, até as mulheres naquelas zonas lá em baixo. Ouvi "Mr. Gomes, Mr. Gomes" nos altifalantes e despedi-me: "bye girl, bye Richard, see you again sometime" e fui para a alfândega com o passaporte português. Disse: "Vou para Portugal de férias e volto daqui a um mês. I love Zimbabwe." Eles mandam-me correr para o avião, cheios de pressa. Ainda perguntei se me iam revistar ou não mas só queriam ver-se livres de mim. Corri para o avião mas antes ainda disse: "I''ll be back, I Love Zimbabwe." Mas cá por dentro estava assim [mostra o dedo médio da mão esquerda] para eles.

Estava a salvo.

O avião estava no ar , respirei fundo e disse: "My god, I''m a poor man, but i''m a free man. Thank you."

Trouxe de lá umas feridas de guerra.

Esta mão aqui [mostra a mão esquerda] não serve para nada. Tenho os nervos presos e o braço atrofiado, tocava guitarra mas já não toco. Foi uma baionetada que levei aqui.

Porquê?

Estava a lutar na guerra da independência a defender a Rodésia como mercenário - Victor Gomes, o Rei do Rock, um mercenário! Treinava luta corpo a corpo com uma arma belga, a FN, quando uma soldada israelita me faz isto. Como estava no meio do mato tive de ser cozido a sangue frio, tudo à balda. Porra doeu que se fartou. Mas se não fosse isto que histórias tinha eu para contar?

Vida 5: Zimbabué - Lisboa e o resto da Europa (1985-1992)

Quando aterra em 85 fixa-se por cá?

Não, fui para Inglaterra, estive uns tempos na França onde pedi asilo político - eu, Vítor Gomes, o Rei do Rock, um asilado!

Durante esse tempo que andou pela Europa, o que fazia?

Cantar, mas não só. Fui soldador, profissão que aprendi no colégio. Nunca tive patrão, consegui assim uns contratos bem pagos pela Holanda, Alemanha, etc... Eu fiz tudo.

Mas em 1992 lá volta.

Sempre que vinha a Portugal de férias as pessoas vinham ter comigo a pedir-me para voltar. Lá lhes fiz a vontade.

Vida 6: Lisboa-Algarve (1992-2006)

Foi fácil arranjar trabalho depois de tantos anos parado?

Era o menino bonito daquele bar que havia ali em Belém, ao pé do espelho de água, o T-Club. Sabe onde é? Até o senhor Balsemão lá tocou bateria uma vez. Era malta da minha idade, mas a quem a vida lhes correu bem. Eram agora uns senhores de tal e tal mas nos anos 60 eram miúdos como eu era e lembravam-se de mim. Correu bem, mas agora já estou reformado.

Sei que chegou a ter uma oficina?

No Algarve, sim. Trabalhava pedra que eu ia buscar à serra e fazia trabalhos lindos de decoração. Abandonei por causa dos químicos, e porque não usava máscara, tive uma hemorragia interna.

Vida 7: Maxime (hoje)

E o que é feito dos Gatos Negros?

Têm as suas vidas. Um deles está hospitalizado aqui perto no Hospital dos Bancários, tenho de o ir lá ver. Foi gerente de um banco. Outro enforcou-se, o Manuel Aleixo, era como se fosse meu irmão. O baterista teve há uns tempos um AVC. Mas ainda durante os anos 60 os Gatos Negros iam e vinham. Uns para a tropa, outros porque se portavam mal.

Como vê este fecho?

Sinto-me triste por saber que o Maxime vai fechar. É uma oficina que vai deixar muita gente desempregada. E para mim era a melhor casa de espectáculos de Lisboa. A cidade vai ficar mais triste e a Praça da Alegria vai ficar com uma lágrima no canto do olho. Gostava que pusesse esta parte no texto, "com uma lágrima no canto do olho". Pode ser?"

No I, por Luís Leal Miranda, Publicado em 29 de Janeiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Roberto De Niro - Táxi Driver


Travis Bickle (Robert DeNiro) é um jovem veterano do Vietname, que trabalha nas ruas de Nova York como motorista de táxi. Conhecendo bem todos os podres das vielas da cidade, cruza o seu caminho com o das jovens Betsy (Cybill Sheperd) e Iris (Jodie Foster), uma prostituta de apenas 12 anos, o que provoca a uma grande revolta contra tudo e todos, extravasando toda a sua agressividade contida…

Táxi Driver é um clássico drama urbano, intemporal, sendo mais uma colaboração da dupla Robert De Niro/Martin Scorcese (Outras foram Touro Enraivecido, ou Tudo Bons Rapazes, por exemplo). Provavelmente o melhor filme de Scorcese, narra a odisseia de um homem alienado da sociedade, perdido e obcecado por transformar o mundo em que vive, tornando-o melhor (no seu entender).

Robert De Niro tem um desempenho fenomenal na criação de um homem solitário irritado com uma sociedade cheia de miséria e desilusão. O encontro com uma prostituta de apenas 12 anos de idade (Jodie Foster) irá ser o cataclismo que fará o copo transbordar e levar à descarga da revolta interior de Bickle sob a forma de violência. No fundo, trata-se de um retrato de uma América dos anos 70, onde muitos dos ex-combatentes do Vietname, sentindo-se marginalizados ou inadequados na sociedade, poderiam eventualmente descarregar a agressividade captada em ambiente de guerra e de alguma forma, libertar os seus fantasmas e demónios interiores.

Martin Scorcese tem um trabalho de realização a roçar a perfeição. Não só permite que a narrativa flua de forma lenta para que o espectador entenda a vida entediante do protagonista, como também utiliza muito bem a fotografia de uma Nova York nocturna e taciturna, para enfatizar isso mesmo. Para acrescentar ainda mais brilhantismos à película a música da autoria de Bernard Herrmann, colaborador habitual de Hitchcock (falecido por altura de estreia do filme) encaixa que nem uma luva na criação do ambiente pretendido. Destaque igualmente para os actores secundários, Cybill Shepperd e o grande Harvey Keitel.

Táxi Driver é um filme em que não se encontram pontos negativos. È um verdadeira obra-prima dos anos 70 e seguramente um dos melhores filmes da década. Nomeado para quatro estatuetas dos Óscares de Hollywood, Melhor Actor – De Niro, Melhor actriz Secundária – Jodie Foster, Melhor Música e Melhor Fotografia, não venceu, apesar de tudo, em nenhuma das quatro categorias. Venceu, isso sim, a palma de ouro do festival de Cannes, o que de certa forma premiou o reconhecimento europeu de um realizador em ascensão, que actualmente é uma referência e um dos dinossauros da sétima arte.

A espaços perturbante e cruel, Táxi Driver tem a particularidade de ainda chocar, mantendo-se actual. Fica na retina a inesquecível interpretação de Robert De Niro que nos leva a ter saudades do tempo em que víamos De Niro ou por exemplo Al Pacino em papeis verdadeiramente assombrosos e que actualmente quase que desapareceram. Táxi Driver, vale mesmo a pena. È indispensável para qualquer amante de cinema e de visionamento obrigatório na obra de Scorcese.


Título Original:
"Taxi Driver" (1976)

Realização:
Martin Scorsese

Argumento:
Paul Schrader

Actores:
Robert De Niro - Travis Bickle
Cybill Shepherd - Betsy
Harvey Keitel - Matthew
Jodie Foster - Iris Steensma

® Sérgio Lopes

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Eric Clapton - Layla & Other Assorted Love Songs,


Um dos álbuns mais importantes da história do rock vai ter várias edições especiais em comemoração dos 40 anos de seu lançamento.
Layla & Other Assorted Love Songs, lançado originalmente em 1 de Novembro de 1970, voltará às lojas em Março em nada mais nada menos que seis (!) edições diferentes, todas com bônus e atrativos especiais para os fãs. Chegarão às lojas edições em CD simples; CD duplo; box com 4 CDs, DVD e vinil; LP duplo; LP do iTunes e vinil de 7 polegadas.

As reedições mais atraentes para os fãs são a Deluxe e a Super Deluxe.
A primeira vem com dois CDs, e trará seis faixas que seriam usadas num segundo álbum de estúdio do Derek and the Dominos, nunca lançado.
Essas composições foram remixadas por Andy Johns, o mesmo engenheiro de som da gravação original. Além disso, trará todas as quatro faixas gravadas na participação da banda no The Johnny Cash Show, em 1970, incluindo uma antológica jam de Eric Clapton com Cash e Carl Perkins. Novas versões de “Tell the Truth” e “Roll It Over”, produzidas por Phil Spector e lançadas num single que está há décadas fora de catálogo, também marcam presença, além de “Mean Old World”, acústico somente com Clapton e Duane Allman.

Já a edição Super Deluxe trará o show completo do grupo no Fillmore East, remasterizado a partir das fitas originais; DVD áudio com versões do álbum em DTS 5.1 e Dolby Surround 5.1; vinil duplo de 180 gramas reproduzindo a versão original do disco em LP duplo, com áudio remasterizado a partir da fita master original; um livro com fotos raras e inéditas, acompanhado de um texto do escritor e pesquisador Ashley Kahn, incluindo novas entrevistas com o falecido Bobby Whitlock, Butch Trucks (baterista da Allman Brothers Band), Andy Johns, o produtor Albhy Galuten e Derek Trucks (guitarrista da Allman Brothers), além de entrevistas antigas com Eric Clapton, Duane Allman e o produtor Tom Dowd. Pra fechar com chave de ouro o pacote, quem o adquirir ainda leva para casa reproduções dos bilhetes de ingresso, dos shows do grupo e outros itens de memorabília.

Composto por Eric Clapton como prova de amor para Patty Boyd, esposa do seu melhor amigo George Harrison e por quem Clapton estava tremendamente apaixonado na época, Layla & Other Assorted Love Songs é um dos discos mais transparentes e intensos da história do rock, dono de uma qualidade que sobreviveu ao tempo. Além disso, é considerado por grande parte dos fãs de Clapton como o seu melhor trabalho, já que traz Clapton alucinando ao lado de Duane Allman, em solos de guitarra que transcendem a dimensão em que vivemos. Ou seja, um item obrigatório em qualquer coleção.
Por Ricardo Seelig

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Yardbirds - Little Games. Um clássico psicodélico injustiçado


O selo Sundazed relançou no último mês Little Games (1967), dos Yardbirds.
O álbum foi disponibilizado em CD e vinil de 180 gramas, com alta fidelidade de som.
Esta edição utilizou como fonte as masters originais inglesas em mono. A capa e todas as artes reproduzem fielmente o disco original de época.

Para completar o pacote, foram incluídas duas faixas bônus, inclusive no LP:" Puzzles", originalmente lado B do 45 Rpm da faixa título; e "I Remeber The Night", uma gravação que permaneceu inédita até 1985, quando Little Games foi relançado em Inglaterra.

Little Games é o último álbum dos Yardbirds, antes do fim do grupo. Lançado em 1967, era um álbum de forte teor psicodélico — como todos os discos daquele ano — e o único em que Jimmy Page figura como líder da banda e seu principal guitarrista.

Na época, os integrantes do grupo andavam interessados em folk inglês e música psicodélica. Page inclusive tinha passado algum tempo na Índia.

A dosagem do hard blues típico da banda acabou por ser reduzida em Little Games, que investiu numa outra sonoridade. Como consequência, os seguidores do grupo — fãs convictos do ex-guitarrista Jeff Beck e insatisfeitos com a sua saída — não aprovaram o disco. Assim, o álbum foi menosprezado, quase que ignorado sendo relegado paraa segundo plano na obra da banda.

Mas a verdade é que "Little Games" é um trabalho primoroso. A sua sonoridade é típica do ano considerado como “a melhor safra do rock”.

Canções como "Tinker Tailor Soldier Sailor", a faixa título e "No Excess Baggage", com o baixo capaz de deitar a casa abaixo, ainda hoje funcionariam como hit. A psicodelia pesada de "Glimpses" traz pela primeira vez Page a tocar guitarra com arco num disco.

A impagável despretensão de "Stealing Stealing" garante um dos momentos mais divertidos do disco. O blues rock pesado tradicional do grupo continua lá em "Smile On Me" e "Drinking Muddy Waters".

"White Summer" iria dar origem a "Black Mountain Side" e ecoar em uma série de outras faixas dos Led Zeppelin.

E há ainda "Only The Black Rose" e "Little Soldier Boy", alicerçadas no folk inglês. E como se não bastasse, ainda temos ali, Nicky Hopkins nos pianos e teclados e John Paul Jones fazendo arranjos e tocando baixo e cello em algumas faixas.

A produção é de Mickie Most, que trabalhou também com os Animals, Jeff Beck Group e Donovan.

Nesse mesmo período, a banda lançou alguns singles que não entraram neste álbum, mas são originários de suas sessões de gravação e possuem uma sonoridade semelhante. Também, "Little Games" resultou numa série de outtakes significativos, como a pesada "Think About It" que já esboçava o solo de "Dazed and Confused". Essas sobras vieram à tona em lançamentos expandidos posteriormente, como o CD duplo Little Games Sessions & More.


domingo, 23 de janeiro de 2011

Jackie DeShannon - Needles and Pins

Jackie DeShannon, nasceu como Sharon Lee Myers a 21 de Agosto de 1944 em Hazel, Kentucky, U.S.A. Foi a primeira cantora/ compositora, do período do rock and roll. Antes de assumir a identidade, Jackie DeShannon, ainda gravou alguns discos, sem grande notoriedade, sob nomes como: Sherry Lee, Jackie Dee, e ainda, Jackie Shannon

Em 1963, "Needles and Pins", cativante lovesong, escrita originalmente por Jack Nitzsche e Sonny Bono (ex-Sony and Cher), gravada pela primeira vez na loura voz da "teen ager", Jackie DeShannon, para a qual fora especialmente composta, atinge os primeiros lugares de vendas dos U.S.A., catapultando assim DeShannon, para a ribalta mundial.

"Needles and Pins", é a típica canção de amor que as todas bandas, sonharam gravar um dia. Seduzidos pela sensualidade de Jackie, Searchers, Ramones e Turtles em estúdio materializaram as suas próprias versões, tendo sido este o maior sucesso, obtido pelos Searchers, que na sequência, ainda gravaram mais um tema de Jackie DeShannon, "When You Walk In The Room" embora sem terem alcançado o mesmo destaque. Na intimidade, quantos deles não sonharam com a petit blonde?

Deprimido, o guitar-hero do Led Zepellin, Jimi Page, escreveu para ela a doce-amarga Tangerine. Está no disco Led II. Das mais lindas canções.Tangerine é para Jackie, criada no amargor do coração partido de Page.

Curiosíssimo facto da “história do rock” (confirmado pela Sociedade Apreciadora de Jackie, nos EUA) aconteceu no Brasil: O primeiro show de rock’n'roll feito naquele pais, no Teatro Record de São Paulo, em 1957 — Rock-n-roll Fantasy — contou com a púbere participação de Jackie Dee: uma loirinha de voz rouca nos seus 17 aninhos…No espetáculo, DeShannon imitava Elvis Presley com “energia atómica!”, segundo a publicidade feita no tempo, para promover o show.

O destino, porém, reservava para a ninfeta outro futuro. Seria não só uma talentosa, cantora, como também uma bem sucedida e respeitada compositora.

De Shannon, compôs "Break-A-Way", gravado por Irma Thomas em 1964 e por Tracey Ullman em 1983.

"Put A Little Love In Your Heart" alcançou o nono lugar na Billboard em 1989 com o dueto Annie Lennox & Al Green, tendo tendo ainda sido gravado por Dolly Parton in 1993.

Tom Petty & The Heartbreakers e Stevie Nicks alcançaram o Top 40 nos U.S. A. em 1986, com "Needles And Pins", que DeShannon gravara originalmente.

A versão de "When You Walk in the Room" de Pam Tillis em 1994, subiu aos primeiros lugares dos tops de vendas country. Uma outra cover de "When You Walk In The Room" pela ex-ABBA Agnetha Fältskog.

Chris Hillman, um dos membros originais dos Byrds, também gravou, "When You Walk in the Room" no seu álbum solo de 1998, "Like a Hurricane".

Como "songwriter", o seu maior sucessso é o hit "Bettie Davies Eyes" de Kim Carnes, composto sob-medida para Kim, espécie de alter-ego vocál de Jackie.

"Bette Davis Eyes" foi numero um nas vendas de singles, 45 RPM, em todo o mundo no ano de 1981, dando a Jackie, e á sua parceira, Donna Weiss, em 1982, um "Grammy Award for Song of the Year".

A 17 de Junho de 2010, Jackie, foi incluida no "Songwriters Hall of Fame".


sábado, 22 de janeiro de 2011

Para recordar e relaxar. Ben Harper - Diamonds on The Inside


Um dos artistas mais talentosos da sua geração, o norte-americano Ben Harper possui uma carreira impressionante, marcada por álbuns da mais alta qualidade.

O seu quinto disco, "Diamonds on the Inside", saiu em 24 de Fevereiro de 2003 e vendeu como água. Divulgado pelos hits "With My Own Two Hands", "She´s Only Happy in the Sun" e pela faixa-título, o trabalho transformou Harper numa celebridade em todo o mundo.

A música que dá nome ao álbum é uma pequena obra de arte. Ben une com sabedoria o seu passado, banhado em doses maciças de música negra, a uma batida pop agradável, e o resultado não poderia ser outro: "Diamonds on the Inside" acabou por se transformar na porta da entrada de milhares de novos ouvintes no universo sonoro do vocalista e guitarrista, cuja principal característica é a alquimia dos géneros musicais negros, notoriamente o funk e o soul, com o rock.

Além de tudo, o video clipe, com belas cenas, traduz com perfeição o clima da canção, levando o ouvinte a uma jornada relaxante.



Por Ricardo Seelig

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Jean Gabin - La Voie Du Zinc - Maintenat Je Sais

La voie du zinc.
Se bem me lembro, diria o Professor Vitorino Nemésio, Jean Gabin , Jean Marais, e outros que agora não me lembro, deram origem a este "cognome", que era atribuído, sobretudo aos actores franceses da década de 50, que falavam com aquela voz rouca, retumbante,e que teria sido "cultivada", nos bares de Montparnasse, Pigalle, e outros quartieres, debruçados sobre o balcão, forrado de zinco, ou cobre, sorvendo lentamente o pastis, com um "verre d'eau". Daí o tal zincado na voz.

Jean Gabin, nascido em Paris,(17 /5/ 1904 — 15 /11/976), iniciou a sua carreira cinematográfica em 1931, e por mais de trinta anos foi considerado o maior actor do cinema francês.
Gabin foi policia, foi ladrão, e deu corpo, voz e alma, ao comissário Maigret, o imperturbável policia dos romances de Georges Simenon.
Contracenou com a musa do cinema francês da época, Simone Signoret, e protagonizou filmes como: La grande illusion de Jean Renoir (1937), La bête humaine (1938), La Marie du port (1949), Le clan des siciliens (1969) e Le chat (1970).

Na música imortalizou o "Maintenat Je Sais", um balanço, uma retrospectiva da sua vida, que é a vida de tantos outros, que como ele, chegaram ás sessenta badaladas do relógio, e sabem, que nada sabem, apenas que o Amor, é o verdadeiro elixir da vida.
Não deixa de ser nostálgico, mas é sobretudo uma melodia maravilhosa, para ser a banda sonora de uma qualquer vida, bem vivida. A minha incluída.

Mais abaixo, está o video clip. Oiçam-no e acompanhem aqui com a letra...

Maintenant Je Sais

(Jean-Loup Dabadie / Jean Gabin)

Quand j’étais gosse, haut comme trois pommes,
J’parlais bien fort pour être un homme
J’disais, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS

C’était l’début, c’était l’printemps
Mais quand j’ai eu mes 18 ans
J’ai dit, JE SAIS, ça y est, cette fois JE SAIS

Et aujourd’hui, les jours où je m’retourne
J’regarde la terre où j’ai quand même fait les 100 pas
Et je n’sais toujours pas comment elle tourne !

Vers 25 ans, j’savais tout : l’amour, les roses, la vie, les sous
Tiens oui l’amour ! J’en avais fait tout le tour !

Et heureusement, comme les copains, j’avais pas mangé tout mon pain :
Au milieu de ma vie, j’ai encore appris.
C’que j’ai appris, ça tient en trois, quatre mots :

Le jour où quelqu’un vous aime, il fait très beau,
j’peux pas mieux dire, il fait très beau !

C’est encore ce qui m’étonne dans la vie,
Moi qui suis à l’automne de ma vie
On oublie tant de soirs de tristesse
Mais jamais un matin de tendresse !

Toute ma jeunesse, j’ai voulu dire JE SAIS
Seulement, plus je cherchais, et puis moins j’ savais

Il y a 60 coups qui ont sonné à l’horloge
Je suis encore à ma fenêtre, je regarde, et j’m'interroge ?

Maintenant JE SAIS, JE SAIS QU’ON NE SAIT JAMAIS !

La vie, l’amour, l’argent, les amis et les roses
On ne sait jamais le bruit ni la couleur des choses
C’est tout c’que j’sais ! Mais ça, j’le SAIS… !



Brian Jones: o beatnik de Cheltenham


Foi o líder fundador dos Rolling Stones. E se hoje a banda se vale da mística em torno da figura do rebelde marginal como a personificação dos ideais do rock’n’roll, a verdade é que Brian Jones nunca precisou encarnar tal papel. Desde o início, ele foi um autêntico outsider.

Nascido em Cheltenham, no interior da Inglaterra, Lewis Brian Hopkin Jones era filho de uma professora de piano. Começou a tocar com 10 anos, aos 12 já era o clarinetista principal da orquestra de sua escola e com 15 já fazia dinheiro tocando saxofone todo fim de semana numa banda de jazz. Como um autêntico beatnik, fez-se á estrada, fugindo da sua cidade natal aos 16 anos de idade.
Escapava também da responsabilidade de ser pai, deixando a sua namorada de 14 anos com um filho nos braços.
Viveu da mendicidade, durante algum tempo na Escandinávia, até que voltou para Londres, aonde descobriu o blues e se integrou no circuito musical local, apresentando-se em "inferninhos", clubes e cafés universitários.

Quando Mick Jagger e Kieth Richards o conheceram, em 1962, ficaram impressionados não apenas com a primeira execução de slide guitar que eles presenciavam, mas principalmente com aquele indivíduo loiro. Brian tinha a mesma idade que eles, tocava de maneira surpreendente, já havia passado por um sem número de bandas, vivia de sua arte, morava sozinho, tinha três filhos e nenhuma esposa. Tinha perdido o contacto com a família e envolvia-se em desordens frequentemente, muitas vezes por furto. Parecia um personagem dos filmes de James Dean. Isto tudo enquanto Jagger e Richards ainda moravam com os pais!

Deu-se então a formação dos Rolling Stones, que surgiram tendo aquele marginal como figura de proa. Com um QI de 137 - acima da média - Brian tinha uma visão única sobre a música e uma facilidade impressionante para dominar, pelo autodidatismo, uma série de instrumentos. Se Mick Jagger passou meses tentando aprender a tocar gaita harmônica, Jones não precisou mais que meia hora.

Quando George Harrison foi para Índia ter aulas de cítara com Ravi Shankar, Brian começou a tocar o instrumento sozinho. Era o responsável por trazer o toque de originalidade que diferençava a sua banda de tantas outras que infestavam os clubes da Swinging London. As suas contribuições musicais nas composições dos Rolling Stones tornavam-se referências citadas por artistas do porte de Eric Clapton, John Lennon, Ray Davies, Bob Dylan e Jimi Hendrix.

Mas não era nada fácil ser-se Brian Jones. Desde o início sofria fortes ataques dentro de seu próprio grupo, permanecendo em constante disputa pela liderança da banda. O controle da situação, começou a escapar-lhe das mãos, quando o núcleo criativo das canções se foi centrando na dupla Jagger & Richards. Sentia-se inibido por tantos músicos de relevo o apontarem como o gênio do grupo, exaltando as suas contribuições. Aliado a tudo isto, há o triste facto de ele ter sido um dependente químico - algo que debilitava a sua já frágil saúde - e pela sua posição, vivia cercado de pessoas que lhe ofereciam todas as drogas disponíveis, sem o questionarem. Era outro factor que, emocionalmente, o deixava em frangalhos. Foi preso mais do que uma vez pela posse de drogas.

O outro ponto que o desestabilizava eram as mulheres. Jones tinha sérios problemas em lidar com o sexo oposto, e várias vezes foi acusado de agressão. O mais grave foi que ele nunca superou a perda de seu grande amor - a actriz, modelo Anita Pallenberg - para, Keith Richards.

Assim como a sua ascensão, a queda de Brian foi meteórica. Afundado em drogas, desestabilizado emocionalmente, e acoçado pela justiça, estava num estado em que não conseguia produzir nada.

O golpe final foi a expulsão da própria banda que ele havia criado.
No mês seguinte, no dia 03 de Julho de 1969, Brian Jones foi encontrado morto, na piscina da sua casa, em circunstâncias até hoje não esclarecidas.

No final do ano - 28 de Novembro de 1969, há cercfa de quarenta e dois anos - os Rolling Stones lançavam Let it Bleed, um impressionante disco de transição com as últimas contribuições de Brian no grupo e a obra símbolo da sua época.

Ao lado de outros gigantes lendários do rock que faleceram cedo demais, todos num curto espaço de tempo - Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin - Brian Jones diferençava-se não só por ser inglês, mas destacava-se por ter precedido e influenciado os demais.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Wanda Jackson, a rainha do rockabilly, renasce aos 73 anos, nas mãos de Jack White!

Wanda Jackson nasceu em Oklahoma, em 20 de Outubro de 1937; desde cedo, sempre teve o incentivo musical de seu pai, Tom, que era cantor de country music. Ele comprou a primeira guitarra de Wanda, logo na sua adolescência e começou a dar-lhe lições de música, além de incentivá-la a tocar piano; costumava também levá-la para ver artistas como Tex Williams, Cooley Spade e Bob Wills. Em 1952, ela ganhou um concurso de talentos locais e com isso, ganhou um show diário na rádio, de 15 minutos que, pelo seu carisma, logo foram ampliados para 30 minutos; este programa durou vários anos solidificando o talento e a capacidade de Wanda em lidar com seu público e conseguiu gravar vários sucessos.

Em 1954, recebeu um convite irresistível do cantor Hank Thompson, para que integrasse a sua banda. Nessa época, ela já era um nome consagrado no mundo do country e do rockabilly, mas quis acabar o liceu antes de começar a actuar pelos Estados Unidos. Além de seu estilo musical diferenciado e característico, Wanda inovou nos figurinos muito elaborados com ajuda da mãe tornou-se na primeira cantora do gênero a usar glamour extra no palco; o seu diferencial eram os super saltos altos, os seus brincos enormes e vestidos com franjas. Quando saiu em tourné, em 1955 e 1956, fez shows ao lado de Elvis Presley que a adorava e ela, por sua vez, dizia que cantava rockabilly por causa do pai e de Elvis.

Em 1956, Jackson finalmente assinou com a Capitol Records; uma relação que durou até o início dos anos 70. A carreira musical dela sempre misturou o country e o rockabilly; ela fez isso muitas vezes, colocando uma música de cada estilo em cada lado de seus compactos. Em 1958, explodiu com o rockabilly "Fujiyama Mama", que se tornou um grande sucesso no Japão, transformando-a num mito por lá.

A sua versão de "Let's Have a Party", que Elvis tinha gravado antes, foi outro hit histórico em 1960. Um ano depois, ela estava de volta ao topo das listas de vendas country music com "Right or Wrong" e "In the Middle of a Heartache". Em 1965, ela chegou ao topo das vendas alemãs com o "Santa Domingo", cantada em alemão. Em 1966, teve mais dois hits memoráveis que foram "The Box It Came In" e "Tears Will Be the Chaser for Your Wine", continuando com enorme sucesso até o final dos anos 60.

Jackson, até os anos 70, nunca deixou de fazer as suas turnês regularmente; foi duas vezes nomeada para o prêmio Grammy e foi uma grande atração em Las Vegas. Casou-se com o programador da IBM Wendell Goodman, em 1961, e em vez de desistir de cantar - como fazia a maioria das cantoras da época – foi seu marido, Goodman, que largou o emprego para gerir a carreira da esposa. Em 1971, Jackson e o seu marido abraçaram o cristianismo, o que, segundo, ela salvou seu casamento. Lançou um álbum gospel , em 1972, "Praise the Lord" e até quase o fim dos anos 70, lançou mais cinco discos no mesmo estilo.

No início dos anos 80, Jackson foi convidada para vir até á Europa tocar o seu velho estilo rockabilly e country e acabou por participar em vários festivais e gravações. Recentemente, artistas da country americano como Pam Tillis, Jann Browne e Rosie Flores reconheceram Wanda Jackson como tendo sido a sua grande influência. Em 1995, Flores lançou um álbum de rockabilly, “Rockabilly Filly”, e convidou Jackson, a sua heroína de longa data, para cantar em dois duetos com ela e ainda embarcaram juntas numa turnê pelos EUA. Foi a sua primeira grande turnê americana desde os anos 70, sem dizer que foi a primeira vez que entrava para um circuito mais “cult” e “undergound”.

Tudo isso resultou no convite do competente músico Jack White, para que Wanda Jackson voltasse em 2010 a começar a trabalhar num novo álbum. Surge então, com o sintomático título “The Party Ain’t Over”. Pode ouvir-se o disco, achando que se trata de uma novíssima cantora adolescente refazendo clássicos de maneira e sonoridade contemporânea.

Mas quando se sabe que, na verdade, esta diva, que completou 73 anos em Outubro do ano passado, está apenas revelando pelas mãos do fã e actual amigo Jack White, para uma geração que talvez nunca fosse ouvir “fonte orgânica”, por estar empanturrada do “pastiche transgênico cheio de agrotóxico”, a surpresa é inevitável!

Jack reune os eus habituias colaboradores, como My Morning Jacket, Raconteurs e Dead Weather e dá um toque sensacional à coleção de covers antigos e contemporâneos, mostrando que Wanda é um furacão que há mais de cinquenta e cinco anos mistura country, rockabilly, gospel e rock and roll de forma tão natural que soa inesperadamente vanguardista. Com uma voz que não combina com uma senhora, da sua idade, o disco abre uma versão sensacional da clássica "Shakin 'All Over", traz gritos e sussurros "roqueiros" em "Rip It Up" e "Nervous Breakdown, reverencia o brega americano das Andrew Sisters com "Rum and Coca Cola", une country e big band na versão "Teach Me Tonight", clássico das De Castro Sisters , já gravada por Amy Winehouse no seu disco “Frank”. E por falar em Amy, Wanda mostra que entende os gostos da inglesa e manda a sua boa versão para " You Know That I’m No Good ", e se ainda tudo isso não bastasse, o próprio Bob Dylan recomendou que ela fizesse uma versão para “Thunder On The Mountain”.

Nada soa muito elaborado, nada soa previsível, tudo soa certinho; cada nota distorcida, cada efeito, cada conservadorismo e cada modernismo, mostra como o mundo moderno deve tratar o conhecimento passado. Produção perfeita e desde já um dos melhores discos do ano e ponto de partida e reflexão para a próxima década.

Wanda Jackson -The Party Ain’t Over




quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Rufus Stone, editora requintada, tem novos lançamentos

A editora Rufus Stone, especializada em livros com acabamento luxuoso e com edições limitadas, acaba de anunciar o lançamento de itens que irão fazer a alegria dos coleccionadores.

"The Beatles Monochrome", Pavarotti, Ronnie James Dio, e Whitesnake, foram alguns dos livros já lançados.

Whitesnake: The Definitive Biography, foi o ultimo lançamento. Escrita pelo trio Simon Robinson, John Tucker e Nigel Young, conta a história da banda de David Coverdale, lista a extensa discografia do conjunto – incluindo álbuns, singles, EPs e coletâneas nos mais variados formatos – e conta com dezenas de fotos exclusivas do grupo, além de itens de memorabília. Lançado também em duas versões, o livro tem a sua Standard Edition limitada a 750 cópias numeradas em todo o mundo, formato 308x308 mm e 240 páginas, tudo embalado numa "slipcase" de acrílico.
A Hardkase Edition é mais exclusiva ainda, com apenas 250 cópias e embalagem "slipcase" de acrílico acondicionada em uma embalagem forrada de espuma.



Para mais informações, inclusive para conhecer outros livros lançados pela editora e adquirir as obras dedicadas a Dio e ao Whitesnake, acedam ao site da Rufus Stone.

Led Zepplin. Tudo é rimix, ou seja, tudo é plagiado


Que os Led Zeppelin são uma das "maiores" bandas da história do rock, ninguém discute. Da mesma maneira, é notório o hábito da banda de Jimmy Page se apropriar de composições alheias, dando uma nova cara às músicas de outros compositores e não concedendo o devido crédito, aos mesmos.

Mas isso fica ainda mais claro no vídeo "Everything is a Remix", produzido pelo roteirista, editor e director Kirky Ferguson, onde ele traça um panorama histórico e exemplifica, claramente, o quanto algumas das mais famosas canções do Led Zeppelin foram “inspiradas” - para não usar outra palavra – em composições alheias.

Assistam ao vídeo e tirem as vossas próprias conclusões:

Everything is a Remix from Kirby Ferguson on Vimeo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Brian Setzer, Mr Rockabilly.


Rockabilly, nasceu da junção das palavras rock e hillbilly, vocábulo que define a música "country/pimba" americana. Assim pode-se conceituar um género do rock que se confunde com este, mas tendo como data de nascimento, a segunda metade da década de cinquenta.

Há quem relacione as raízes deste estilo a nomes como Elvis Presley, Carl Perkins, Buddy Holly, Little Richard, Chuck Berry, Bill Haley, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis.
É natural, que a lista não esteja completa. Dois nomes fundamentais deram, o "pontapé de saída": Eddie Cochran e Gene Vincent.

São desta dupla clássicos eternos como "Be-Bop-a Lu-La", "Bluejean Bop", "Twenty Flight Rock", "C’mon Everybody", "Something Else" e "Summertime Blues". Não nos esqueçamos dos Johnnies: Johnny Kidd and the Pirates e Johnny Burnette. Este último foi o primeiro responsável pela popularização de "The Train Kept-a-Rolling" e "Honey Hush", EP de 1956.

Nos anos 60 e 70 o rockabilly perdeu um pouco da sua força e parecia condenado. Eddie Cochran morrera em 1960 devido a um acidente de carro. Os outros artistas citados acima já não se preocupavam muito em gravar temas tipicamente rockabilly. O próprio Gene Vincent fez discos irregulares nos anos sessenta, vindo a falecer em 1971, vítima de complicações causadas pelo alcoolismo. Gene nunca se recuperou do trauma causado pela perda do seu grande amigo Eddie Cochran, o que o levou ao vício da bebida. Portanto, neste hiato das décadas de 60 e 70, é dificil encontrar um álbum de rockabilly que se tenha destacado.

Só no final dos anos setenta apareceria um nome que daria um sopro de renovação ao género: Brian Setzer.

Brian nasceu em 10 de Abril de 1959 em Massapequa, Nova York. O seu primeiro instrumento foi a tuba, prenda dos seus pais, no seu oitavo aniversário. Tocou-a durante dez anos, até a trocar definitivamente pela guitarra. A eleita, que viria a ser a sua imagem de marca, foi alternando ao longo da sua carreira, entre os vários modelos da Gretsch.

Brian Setzer, optou logo pela Gretsch 6120, a partir do momento que viu uma fotografia de Eddie Cochran.
"Não sabia a marca nem o modelo, mas soube logo que tinha que ter uma igual," declarou Setzer, quando questionado o porquê da sua escolha .
"Quando tinha 17 anos, vi um anuncio num jornal: "Gretsch for sale". Quando vi que era uma Eddie Cochran, compreia-a de imediato por 100 dólares.”

A audição de discos das antigas big bands, swing, de mestres como Gene Krupa, Benny Goodman, e o seu interesse pelo punk rock que aflorará por volta de 1978, contribuiu para a direcção musical que, num futuro próximo, Brian conduziria a sua carreira. A primeira experiência com uma banda foi com os Bloodless Pharaohs. Gravaram, "Bloodless Pharaos, Marty Thau 2 x 5", lançado originalmente em 1980, e no ano de 2005, em CD. A qualidade de som é muito má. Vale só, como item de coleccionador.

Após ter assistido ao show de Mel Lewis Orchestra, Brian já não tinha a menor dúvida: iria formar a sua própria banda rockabilly. Conhece Lee Rocker (Leon Drucker), contrabaixista, e Slim Phanton (James McDonnell), baterista. Juntos formam os Stray Cats, que tomaria de assalto o cenário musical através de rocks vibrantes e rápidos, tendo como ponto alto a virtuosidade de Setzer, que também se revelaria um óptimo compositor e vocalista.

Para assegurar o inicio de uma carreira de êxitos, e como diz o ditado, "santos da casa não fazem milagres,"decidem apostar no mercado inglês. Mudam-se para Inglaterra, aonde conhecem o já experiente Dave Edmunds, líder dos Rockpile, e que produz o primeiro álbum homónimo de 1981. A reacção positiva foi instantânea. Aparecem os primeiros hits, “Stray Cat Strut”, Rock this Town” e “Runaway Boys”. O disco seguinte, "Gonna Ball", teve menor repercussão. Voltam a casa, aos Estados Unidos para então, mais experientes e resguardados coma as vendas do primeiro álbum, divulgarem o seu trabalho, e conquistar o seu espaço num mercado virgem e conhecedor do género.

Entre 1981 e 2004, há várias separações e onze discos:

Stray Cats (1981)
Gonna Ball (1981)
Built for Speed (1982)
Rant N' Rave with the Stray Cats (1983)
Rock Therapy (1986)
Blast Off! (1989)
Let's Go Faster! (1990)
The Best of the Stray Cats: Rock This Town (1990)
Choo Choo Hot Fish (1992)
Original Cool (1993)
Rumble in Brixton (2004)

O quarto álbum, o "Rant n’ Rave with the Stray Cats", lançado em 1983, tem dois "power plays", de enorme sucesso: (“She’s”) Sexy and 17” e a belíssima balada “I Won’t Stand in your Way”, um accapela, que viria a ter uma versão, cá em Portugal, no EP, "Just For Teengers", de Vicky e os Blue Jeans.

Em 1984, Brian junta-se a Robert Plant para formar os The Honeydrippers, de curtíssima duração, e gravam o "The Honeydrippers, Vol !", LP, com dois temas, de onde se destacou o “Sea of Love”.
Em 1987 participa da cinebiografia de Ritchie Valens, La Bamba, fazendo o papel de um dos seus maiores ídolos, Eddie Cochran.

Sentindo-se mais á vontade, e tendo conseguido diversos hits no seu trabalho a solo, Brian lança entre 1986 e 2010, dez álbuns com a sua chancela ímpar, enquanto pelo meio ia juntando os Stray Cats, para gravações e espectáculos, tendo participado com Stevie Ray Vaugham, numa tourné em 1989, para divulgação do "Blast Off!"



Esta é a lista dos seus trabalhos a solo:

The Knife Feels Like Justice (1986)
Live Nude Guitars (1988)
Rockin' By Myself (1998)
Ignition! (2001)
Nitro Burnin' Funny Daddy (2003)
Rockabilly Riot Vol. 1: A Tribute To Sun Records (2005)
13 (2006)
Red Hot & Live (2007)
Songs From Lonely Avenue (2009)
Don’t Mess with a Big Band (2010)

O projecto de unir o rockabilly com o som de uma orquestra concretiza-se em 1994 com o lançamento da Brian Setzer Orchestra.
Em 1996, Brian é agraciado com o galardão, Guitar Slinger e, em 1998, e "The Dirty Boogie" chega às lojas, sendo até hoje, considerado como um dos melhores discos de Brian e da sua orquestra, alcançando o 9º posto, nas listas de vendas americanas.

De 1994 até hoje, The brian Setzer Orchestra, lança doze discos:

The Brian Setzer Orchestra (1994)
Guitar Slinger (1996)
The Dirty Boogie (1998)
Vavoom! (2000)
Boogie Woogie Christmas (2002)
Jump, Jive an' Wail - The Very Best of the Brian Setzer Orchestra (2003)
The Ultimate Collection (2004)
Dig That Crazy Christmas (2005)
Wolfgang's Big Night Out (September 2007)
The Ultimate Christmas Collection (October 2008)
Christmas Comes Alive! (2010)

O primeiro reconhecimento oficial por sua obra dá-se em 1999, com a atribuição do prémio Orville H. Gibson Lifetime Achievement, no Gibson Awards. Mas não se fica por aqui.
Desde 2000 Brian Setzer já conquistou três Grammy: Melhor Performance de Grupo Pop para "Jump, Jive Na’ Wail", e dois de Melhor Performance Instrumental, com "Sleepwalk" e "Caravan".
Em Dezembro de 2006, teve a sua sétima nomeação para os Grammy pela versão de "My Favorite Things", mais uma vez na categoria Melhor Performance Pop Instrumental.

Brian Setzer, é considerado um dos melhores músicos e com uma prolífica carreira. A sua singular criatividade é sentida nas composições, arranjos, vocais, mas sobretudo, como um excepcional guitarrista que soube fundir com maestria ímpar o jump blues, swing, jazz e o chamado texas blues, tendo como principal ingrediente, claro, o rockabilly.
O legado de Eddie Cochran, Gene Vincent e tantos outros importantes nomes continua em boas mãos.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Grammys, 2011, os nomeados, e as actrações.


Lady Gaga, Eminem, Katy Perry, Arcade Fire, Cee Lo Green e Miranda Lambert são algumas das atracções que se apresentarão durante a cerimónia de entrega dos Grammies, no dia 13 de Fevereiro, em Los Angeles. A informação foi divulgada nesta quinta, 13, pelo site oficial do evento, que está na sua 53ª edição.

O grupo indie canadiano Arcade Fire e a artista country Miranda Lambert farão a sua primeira actuação num Grammy, enquanto os outros já são veteranos.

A noite, pelos vistos, será bastante especial para Eminem, que é o líder de indicações do prémio, recebeu dez.
Lady Gaga não fica muito atrás, concorre em seis categorias.
Já Cee Lo Green e Katy Perry disputam, cada um, quarto troféus e os Arcade Fire e Miranda Lambert podem receber três dos prémios em disputa.

Apesar da confirmação oficial ter saído só agora, a assessoria de imprensa do canal a cabo TNT, que transmitirá a cerimónia ao vivo, já tinha anunciado a participação de Lady Gaga, na última segunda feira, 10 de Janeiro, quando também divulgou que a cantora apresentará a faixa inédita "Born This Way" durante a sua actuação.

Da mesma forma, o site Pitchfork já tinha noticiado a participação musical dos Arcade Fire e a página da web Gigwise, publicou na manhã desta quinta feira, 13 de Janeiro, que Eminem se apresentaria.

É esta a lista das indicações.


Canção do ano
"Beg Steal or Borrow" - Ray LaMontagne And The Pariah Dogs
"Fuck You" - Cee Lo Green
"The House That Built Me" - Miranda Lambert
"Love the Way You Lie" - Eminem Featuring Rihanna
"Need You Now" - Lady Antebellum

Artista revelação
Drake
Justin Bieber
Esperanza Spalding
Florence + the Machine
Mumford & Sons

Álbum do ano
Arcade Fire - The Suburbs
Eminem - Recovery
Lady Antebellum - Need You Now
Lady Gaga - The Fame Monster
Katy Perry - Teenage Dream

Gravação do ano
Eminem e Rihanna - "Love the Way You Lie"
B.o.B e Bruno Mars - "Nothin' On You"
Jay-Z e Alicia Keys - "Empire State of Mind"
Lady Antebellum - "Need You Now"
Cee Lo Green - "Fuck You"

Álbum pop
My world 2.0 - Justin Bieber
I Dreamed a Dream - Susan Boyle
The Fame Monster - Lady Gaga
Battle Studies - John Mayer
Teenage Dream - Katy Perry

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Lady Gaga - "Bad Romance"
Katy Perry - "Teenage Dream"

Performance pop masculina
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Michael Jackson - "This Is It"
Adam Lambert - "Whataya Want From Me"
Bruno Mars - "Just The Way You Are"
John Mayer - "Half Of My Heart"

Colaboração pop
B.o.B, Eminem & Hayley Williams - "Airplanes, Part II"
Herbie Hancock, Pink, India.Arie, Seal, Konono No 1, Jeff Beck & Oumou Sangare - "Imagine"
Elton John & Leon Russell - "If It Wasn't For Bad"
Lady Gaga & Beyoncé - "Telephone"
Katy Perry & Snoop Dogg - "California Gurls"

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os Dez discos, imprescendíveis de Heavy Metal, dos anos 70


Quais os dez discos essenciais que o ouvinte de Heavy Metal tem que ouvir/ter?

Este assunto, já deu origem ás mais diversas discussões, pois como diz o povo, "cada cabeça a sua sentença", ou ainda "cada côr o seu paladar".

Além de que nem sempre somos justos na escolha. Com estas premissas em mente, resolvi escrever este texto, referenciando os dez discos essenciais - para mim - de cada década, sem beneficiar esta ou aquela banda, e sem usar as subdivisões, sendo sempre o mais imparcial possível e, respeitando cada época e as suas características.

Os anos setenta são caracterizados pelo fim da guerra do Vietnã, pelas tensões constantes entre Estados Unidos e União Soviética.

Musicalmente, a década começou mal, já que foi exactamente no dealbar dos anos 70, que os Beatles se separaram.
Deu-se o surgimento do movimento punk inglês em 1977, embora se atribua, aos americanos Ramones, a criação do género.
Apareceu a "disco music", eternizada no filme Saturday Night Fever, cuja banda sonora foi feita pelos Bee Gees.

Com este cenário, gerou-se uma espécie de revolta, contra os acima enunciados géneros musicais, e daí, aparecer um grupo de músicos, que de alguma forma, resolveram colocar o Rock'n Roll, na ribalta, desta vez, de uma forma virulenta, e energética.Assim, tipo grito de revolta.

Refira-se que o termo Heavy Metal, aparece pela primeira vez no tema "Born To Be Wild", dos Steppenwolf, formados em 1967.
Born to be Wild recebe o crédito com a frase, "Heavy Metal Thunder", contido no segundo verso da terceira estrofe da letra do clássico, o qual serviria mais tarde para denominar o estilo.
A canção foi escrita por Mars Bonfire (Dennis Edmonton), antigo membro da Sparrow.
Foi a primeira menção do termo "Heavy metal" associado com a música rock.
A mesma canção é considerada por muitos críticos a primeira canção Heavy Metal de todos os tempos.
"Magic Carpet Rider", outro sucesso do grupo, também faz apologia aos grupos de motociclistas.

Mas vamos lá á lista dos dez mais da heavy music.

1. Black Sabbath – Sabbath Bloody Sabbath (1973)


Falar nos Black Sabbath é sempre problemático, pois citar apenas um dos seus discos da formação clássica causa enorme polémica, mas este é o escolhido por ser ele a síntese do que encontramos no heavy metal actual.

Após o sucesso por parte de público e imprensa de Vol 4 (já que os três primeiros discos foram massacrados pela mídia da época) como um disco bem feito, Sabbath Bloody Sabbath é tido como o ápice criativo de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Terry ‘Geezer’ Butler e Bill Ward, que mostram o mesmo estilo, só que bem trabalhado e tão experimental quanto seu predecessor, mas ainda mais refinado.

Apoiado em clássicos como a faixa-título, com os seus riffs marcantes e azedos (o clip da música é extremamente hilário, contrapondo-se ao clima soturno da mesma, mas vale a pena ser visto), a bela e pesada “A National Acrobat”; “Sabbra Cadabra”, cujos riffs serão referência para o thrash metal nos anos 80; “Who Are You?”, no velho estilo da banda; e a quase balada “Spiral Architect”.

O disco é tão bom que nem aparenta que já naquela época haviam tensões extremas entre os integrantes, tanto que Ozzy já havia saído e retornado á banda. Para aqueles que desejam conhecer o que estes ingleses de Birmingham tinham para oferecer, este disco é a melhor escolha, já que a banda, após o seguinte (Sabotage), entraria em queda livre, o que levaria á saída de Ozzy.

Detalhes interessantes do álbum: os ensaios para a gravação foram feitos em masmorras do castelo Clearwell, no meio da floresta de Dean em Inglaterra, uma vez que o grupo não conseguiu alugar um lugar no Record Plant estúdio, onde haviam gravado o Vol 4, pois a sala onde gravaram antes estava ocupada por um sintetizador imenso. O quarteto também não conseguiu compor na casa que alugaram em Bel Air por causa da fadiga e do abuso de drogas, e que segundo Tony Iommi acabou por ajudar o clima das composições. Outro é a participação de Rick Wakeman, do Yes, na faixa “Who Are You?” - e Ozzy, como sempre, acabou a gozar com Rick por causa da suas enormes orelhas.

2. Led Zeppelin –
Led Zeppelin IV (1971)

Se ouve uma banda mais envolta numa áurea de mistério e misticismo que os Led Zeppelin nos anos setenta, eu mudo de nome!
Acusações de satanismo, histórias estranhas em torno de Jimmy Page (que parecia ser seguidor dos ensinamentos de Aleyster Crowley na época) e do vocalista Robert Plant, uso e abuso de álcool, as apresentações energéticas, a morte do filho de Plant, fora outros factos e boatos que acompanharam a banda até a morte do baterista John Bonham, e o final do grupo. O único poupado a polémicas foi o baixista John Paul Jones, que depois do final da banda seguiria a carreira de produtor musical.

Mas não há como negar sua imensa contribuição para o Heavy Metal como um todo. A banda fez escola, e é uma das maiores influências musicais das bandas de hard / glam da Califórnia nos anos oitenta.

Led Zeppelin IV, também conhecido por Four Symbols, The Fourth Album (ambos usados no catálogo da Atlantic Records), Untitled, Runes, Sticks, ZoSo, The Hermit ou simplesmente IV - sendo que Zoso é também um apelido de Jimmy Page -, é o disco que consolida o sucesso dos três anteriores, sendo mais rocker que o anterior, Led Zeppelin III, que era mais experimental, bluesy e com várias incursões acústicas.

Pedradas como “Black Dog” e “Rock and Roll”, aliadas a músicas de extremo bom gosto como “When the Levee Breaks” (com óptimas incursões de gaitas) e “Going to California” e baladas folk como “The Battle of Evermore” entraram para o repertório de clássicos de qualquer "banger" que se preze.

Agora, falar de “Stairway to Heaven” é ingrato demais. O que mais pode ser escrito sobre este tema, que já não se tenha falado nestes quarenta anos desde que o álbum foi lançado? Basta dizer apenas que, por causa desta faixa, Jimmy Page solicitou á Gibson, na época, a famosa SG de dois braços para poder tocá-la ao vivo, uma marca registada de Page que seria copiada à exaustão por décadas!

Audição mais que obrigatória, e remédio certo contra punks, disco music ou funks que nos são impingidos dia a dia, e nos dão cabo dos ouvidos e das meninges.

Facto interessante: este disco é um verdadeiro nómada, em matéria de estúdios! Começou a ser gravado no recém inaugurado estúdio subterrâneo da Island Records em Dezembro de 1970, mas a banda aceitou a sugestão dada pelo Fleetwood Mac e foi para a Headley Grange, uma remota casa no estilo vitoriano no leste de Hampshire, em Inglaterra, para gravações adicionais. Além disso, usaram também o estúdio móvel dos Rolling Stones.

Jimmy Page comentou que "nós precisávamos do tipo de lugar onde pudéssemos beber uma xícara de chá e andar pelo jardim, para então entrarmos e fazermos o que tínhamos que fazer".

Esta atmosfera relaxante ajudou a banda em vários sentidos, pois de acordo com Dave Lewis "muitas das faixas foram gravadas num só take”.

Uma vez terminadas as gravações básicas, eles retornaram para o Island Studios, terminaram as fitas master e foram para o Sunset Sound em Los Angeles para a mixagem, que acabou por não agradar á banda, levando-os de volta a Londres, o que atrasou o lançamento do LP em cinco meses.

Outras três músicas gravadas nessas seções - “Down by the Seaside”, “Night Flight” e “Boogie with Stu” (com Ian Stewart dos Stones no piano) - foram deixadas fora do disco, mas apareceram depois no álbum Physical Graffiti, lançado em 1975.

3. Deep Purple – Machine Head (1972)

A banda com mais guerras de ego de todos os anos 70, só perdendo em mudanças de formação para os Rainbow (que por um acaso é o grupo de Ritchie Blackmore, ex-guitarrista do próprio Deep Purple), sendo talvez, dos três dinossauros "setentistas", juntamente com os Zeppelin e os Sabbath, o mais conseguido, o mais elegante na sua musicalidade, o que não seria de se estranhar, graças à formação clássica de Blackmore e do teclista Jon Lord.

Machine Head é o terceiro disco da segunda formação (que ainda conta com Ian Gillan nos vocais, Roger Glover no baixo e Ian Paice, pai dos baterias mais técnicos do Heavy Metal), e o mais sublime desta formação, por ter músicas clássicas obrigatórias como “Highway Star” - que abre o disco -, “Lazy”, “Pictures of Home” e o maior hino da banda, “Smoke on the Water”.

Dez, entre dez fãs do Rock, conhecem o famoso riff de guitarra, e mesmo os não "roqueiros" a conhecem, embora não saibam de quem é ou qual o seu título. Não ouvir este disco é um pecado imperdoável a quem se diz fã do Heavy Metal.

Facto interessante: todos já sabemos que “Smoke on the Water” foi feita justamente por causa do incêndio do casino de Montreaux, aonde a banda de Frank Zappa estava a tocar naquele mesmo momento. Mas o disco dos Purple foi gravado no Hotel Montreaux, porque era para ter sido um disco ao vivo a ser gravado no casino, o que fez a banda ter pouco tempo em estúdio
(Machine Head foi gravado entre 6 e 21 de Dezembro de 1972, ou seja, apenas quinze dias!!!) justamente para não atrasar o lançamento do vinil.

4. Motorhead – Overkill (1979)

Thrash, death, black, as suas subdivisões e tudo o que for brutal e extremo no Heavy Metal como um todo tem um pai por direito na década de setenta: Motorhead.

Comandado por Mr Rock’n’Roll, o baxista e vocalista Lemmy Kilmister, a banda é referência por criar canções curtas, rápidas e brutais, e a seu tempo os Motorhead ainda iniciaram a fusão do peso e técnica do metal com a adrenalina do punk, e ainda não mostraram preocupação com o próprio visual, deixando de lado a tradição das plumas e lantejoulas usada por músicos como David Bowie e Gary Glitter nesta época, bem como rompeu com o visual hippie que os Black Sabbath e os Deep Purple usavam.

Acompanhado pelo guitarrista ‘Fast’ Eddie Clarke (um fã confesso de Jimmy Page e Eric Clapton) e pelo baterista Phil ‘Philty Animal’ Taylor, um ex-traficante de drogas, eles invadiram o Roundhouse Studios e o Sound Development Studios juntamente com o produtor Jimmy Miller e gravaram esta "paulada" nos tímpanos, imortalizando o nome da banda para sempre.

Hinos como a mais metaleira “Overkill”, “No Class” (cujo riff inicial Eddie mais tarde usaria na música “Say What You Will”, da sua banda com Pete Way, Fastway, “(I Won’t) Pay Your Price”, “Stay Clean”, “Capricorn”, “Damage Case” e “Metropolis” são mais que obrigatórios.

Factos interessantes: a ficha técnica de Overkill diz que todo o processo de gravação foi feito entre Dezembro de 1978 e Janeiro de 1979 (o lançamento foi em 24 de Março de 1979), mas a gravação em si foi feita em apenas um dia! Isso mesmo, um dia!!! O estado do pessoal durante as gravações era tamanho que durante as gravações dos vocais de “(I Won’t) Pay Your Price” Lemmy balbucia ‘I’m so drunk’ (estou tão bêbado) e cai do banco.

5. Judas Priest – Sad Wings of Destiny (1976)

Nenhuma lista de discos dos 70 estaria completa sem uma obra dos Metal Gods. O Judas Priest é a banda responsável pela introdução do visual carregado de couro, tarrachas e spikes no heavy metal, bem como da musicalidade refinada e dos vocais ora agudo, ora falsete de Rob Halford, pelos duetos furiosos das duas guitarras de K.K. Downing e Glenn Tipton e o groove de Ian Hill (baixo) e Allan Moore na bateria, entre outras dádivas divinas.

Sad Wings of Destiny veio para apagar a impressão deixada pelo fraco Rocka Rolla (1974), que sofreu problemas técnicos e que fizeram com que a sua gravação fosse um desastre, além de muita interferência por parte do produtor Rodger Bain (o mesmo que produziu a trinca inicial do Black Sabbath e o primeiro dos Budgie), e superou as expectativas de muitos!

Atente-se que o disco surgiu pouco antes da onda disco music e do movimento punk inglês, que varreriam a Europa e os Estados Unidos, o que causou graves problemas para as bandas de Heavy Metal.

O álbum é o segundo pelo selo independente inglês Gull Records, pois os Judas estavam a lutar contra a falta de suporte financeiro que deveria ser dado pela gravadora, tanto que, após mudar de empresário a banda rompeu os laços contratuais com esta e assinou com a Columbia, e acabou perdendo os direitos de autor da gravação de Rocka Rolla, Sad Wings of Destiny e das demos gravadas, mas conseguiram pelo menos, manter o direito das músicas serem reconhecidas como de sua autoria, bem como o direito de tocá-las ao vivo.

A compsoição de Joan Baez, “Diamonds and Rust”, foi originalmente gravada para Sad Wings of Destiny, mas foi retirada do LP, regravada e lançada no disco seguinte, Sin After Sin.

O porquê de ser justamente este o disco o mais marcante da banda nos anos setenta? Simples! Como já citei acima, ele apaga de vez a má impressão deixada por Rocka Rolla, livrando a banda de um futuro incerto, e traz hinos eternos como “Tyrant”, “Genocide”, “Epitaph”, “Victim of Changes” (que guitarras!) e “The Ripper” (onde Rob Halford arrasa, mostrando porque influenciará a tantos no futuro), sendo que estas duas estão até hoje no set list da banda.
Preciso dizer mais alguma coisa?

6. Scorpions –
Lovedrive (1979)



Ok, tudo bem, eu já sei que muitos vão perguntar porque é aqui não estão, Tokyo Tapes (1978), Taken By Force (1977) ou Virgin Killer (1976), mas tenho os meus motivos sem ser o meu gosto pessoal.

Os Scorpions foram a primeira banda alemã de Heavy Metal (mais especificamente de Hard Rock) a fazer sucesso fora de seu país bem como da Europa, graças ao talento do vocalista Klaus Meine e das composições bem feitas do guitarrista Rudolf Schenker.

Óbvio que Francis Buchholz, baixista na época e que estava na banda desde o seu início, também tem os seus méritos em composições, mas a dupla Meine/Schenker, são o equivalente á dupla, Lenonn McCartney, desde a época do primeiro Lonesome Crow (1972), e mesmo depois de a banda ter acabado. Isso mesmo! Os Scorpions tinham acabado após o seu primeiro disco devido à saída de Michael Schenker, irmão mais novo de Rudolf e guitarrista solo, passando-se para os UFO.
Os outros elementos não continuaram porque Uli Jon Roth não quis ficar na banda, preferindo continuar seu trabalho com o Dawn Road, tendo depois entrado Rudolf e Klaus, e então, de comum acordo, resolveram usar o nome Scorpions por este já ser bem conhecido na cena alemã!

Mas falando do Lovedrive, este disco era esperado como um fiasco musical, já que muitos consideravam o estilo de Uli Jon Roth insubstituível, e ainda por cima, haviam trocado a RCA pela Mercury Records nos Estados Unidos e pela Harvest/EMI Electrola para o resto do mundo. Só que se esqueceram de avisar Rudolf, Klaus e Francis, bem como ao baterista Herman Rareball, que foram à luta e depois de ouvirem mais de 140 guitarristas (!!!!) optaram por Matthias Jabs, sendo que ainda tiveram a ajuda de Michael, que tinha sido demitido dos UFO pelo uso abusivo de bebidas, e outras substâncias. O uso de cocína po Michael, arrastou-se até 1986.

O fracasso esperado tornou-se, de acordo com a crítica especializada, no melhor trabalho da banda, alcançando um Disco de Ouro em vários países. A sua capa foi eleita pela Playboy americana como A Melhor Capa de Disco de 1979.
Lovedrive, traz clássicos como “Loving You Sunday Morning”, “Coast to Coast”, “Can't Get Enough”, “Lovedrive” e “Holiday”, naquele estilão que seria ainda mais lapidado até Love At the First Sting (1984).

7. Kiss – Destroyer (1976)

Falar de heavy metal e hard rock dos anos setenta e não falar dos Kiss, não seria uma injustiça ... seria um pecado imperdoável, digno de imolação numa fogueira na praça pública!
Os Kiss são a banda que uniu músicas bem feitas, fáceis de assimilar e acessíveis ao ouvidos menos incautos, com shows de pirotecnia, visual bem planeado e óptimas estratégias de marketing. Óbvio que por trás disso estavam as mentes empresariais do baixista Gene Simmons e do vocalista/guitarrista Paul Stanley, aliados ao baterista Peter Criss e ao guitarrista Ace Frehley – que, para muitos, é a alma musical da banda na sua primeira line-up.

Poucos sabem, mas os Kiss estavam apostando alto neste disco, uma vez que seus três primeiros álbuns de estúdio (Kiss e Hotter Than Hell de 1974 e Dressed to Kill de 1975) haviam levado saraivadas pesadas da crítica. Nem mesmo o eterno hit “Rock and Roll All Nite” fez a crítica aliviar a pressão em cima dos quatro mascarados.

Alive! (1975), com as suas vendas generosas, deu uma segunda vida aos rapazes, mas era necessário provar que eles eram uma boa banda e não somente um circo no formato de rock and roll.

A Casablanca, gravadora do grupo, havia renovado o contrato para mais dois discos, e foi,uma cartada de sorte definitiva, ao convidar Bob Ezrin (que já havia trabalhado com Alice Cooper) para produzir o disco, e, com seu toque, a banda acertou em cheio!

Da capa extremamente chamativa, que foi e é copiada até hoje, à qualidade de gravação imposta, Destroyer é um marco obrigatório.

Ezrin trouxe refinamento às músicas, inclusive obrigando a banda a ter aulas de teoria musical, já que ninguém ali era grande musico, excepto Ace, sem contar com os raspanetes homéricos que dava a Gene e Ace, ao ponto de ameaçar substituir Frehley pelo guitarrista contratado Dick Wagner, para que ele cooperasse – e, mesmo assim, Dick tocou em “Flaming Youth”, “Sweet Pain” e fez a guitarra acústica de “Beth”, pois Ace, não queria parar de jogar, as suas cartas!. Isto sem falar no uso de orquestra, corais e outros arranjos.

O resultado? Por um acaso o caro leitor nunca ouviu “Detroit Rock City”, “God of Thunder”, “Do You Love Me”, “King of Night Time World”, ou mesmo a balada “Beth” (a responsável por catapultar o disco, que quase foi um fracasso de vendas)?

Pois é. A história não mente.

8. Alice Cooper – Billion Dollar Babies (1973)

O velho Vincent Damon Furnier, que é nem mais nem menos do que a nossa querida "tia" Alice Cooper, trouxe sempre surpresas maravilhosas para nós, os seus queridos sobrinhos. Um dos pais do rock horror, fosse no visual sempre chocante ou nas apresentações teatrais, a contribuição de Alice é incomensurável.

O escolhido é Billion Dollar Babies porque foi o disco de Alice Cooper mais bem sucedido até então, fora a ironia do título com a própria banda, já que nas palavras do próprio Alice, é uma referência ao sucesso repentino deles, pois “como podemos nós, esta banda, que dois anos atrás morávamos no porão da Chambers Brothers em Watts, ser o grupo número um do mundo, com as pessoas atirando-nos com dinheiro para cima, aos montes ?”.

As letras exploram a ideia de que todos possuem perversões doentias, coisa a qual Alice Cooper bem sabe fazer.

A faixa “No More Mr Nice Guy” é um hino, inclusive regravado pelos Megadeth para a banda sonora do filme Shocked, e, juntamente com “Elected”, “Billion Dollar Babies” e “I Love the Dead”, destacam-se num álbum difícil de escolher destaques, já que as faixas se nivelam por cima, graças ao toque de Bob Ezrin na produção, um midas dos anos setenta.

Não há mais o que dizer, apenas ouvir este clássico até explodir os ouvidos!

9. Thin Lizzy – Black Rose: A Rock Legend (1979)

Uma das mais injustiçadas bandas dos anos 70 são, sem sombra de dúvidas, os Thin Lizzy.
Tendo Phil Lynnot (baixo/vocal) no comando, este grupo, produziu sempre discos e shows com intensidade, energia e originalidade, e embora elogiados pela crítica nunca tiveram a merecida popularidade.
Notem bem que estou a falar da mesma banda aonde estiveram músicos do quilate de Gary Moore, Brian Robertson, e John Sykes, entre outros.

Black Rose: A Rock Legend, veio logo após Live and Dangerous (1978), que coroou a primeira fase da banda. O disco que inauguram uma fase um pouco mais elaborada dos Thin Lizzy, mas mantendo sempre as influências iniciais de música folk irlandesa e country, características marcantes do quarteto, ainda mais abrilhantado pelas guitarras de Gary Moore e Scott Gorham e pelo groove, peso pesado, de Phil e Brian Downey.

Nas gravações, o vício, as drogas de Phil e Scott aumentou, fazendo com que isso influenciasse até mesmo nas músicas, como em “Got to Give It Up”.
O disco todo é bom, e os singles de “Do Anything You Want To” e “Waiting for an Alibi” levaram a banda ao segundo lugar nas paradas da Inglaterra. Mas uma faixa merece citação especial: “Roisin Dubh (Black Rose) - A Rock Legend”. As outras são óptimas, mas esta é obrigatória, já que é um medley de músicas tradicionais irlandesas com arranjos feitos por Gary e Phil.

Um facto curioso, foi o retorno da banda sem Phil, que morreu em 1986 devido ao abuso da cocaína, em 2007 para uma tour, mas quem conhece os Thin Lizzy sabe que esta reunião não fez jus ao passado da banda.

10. UFO – Phenomenon (1974)

Mais um grupo injustiçado, e olhem que Pete Way é uma das maiores influências musicais de Steve Harris - ele próprio já disse isso em entrevistas!

Capitaneados por Phil Mogg (vocal) e Pete Way (baixo), durante anos, apesar de Pete ter saído antes para formar outros projectos, como os Fastway com Eddie Clarke e o Waysted, a banda já acabou e já se juntou duas vezes, mas mantendo sempre o bom gosto musical de sempre, apesar de alguns fracassos comerciais.

Os UFO situam-se entre o heavy metal, o hard rock setentista e a sonoridade da NWOBHM sem o mínimo pudor, e sem deixar os seus créditos por mãos alheias!

Falando do disco, Phenomenon marca a entrada do virtuoso alemão Michael Schenker nas guitarras, dando mais peso e "punch" à banda, que deixou o space rock dos dois primeiros álbuns para trás e investiu num som mais pesado e encorpado, mais metal mesmo.

O trabalho em si é todo bom, mas há dois hits históricos: “Rock Bottom” e “Doctor Doctor”, que qualquer fã da banda tem que conhecer, e que em todos os shows dos UFO teem que estar presentes.

Ao lado de Phil, Pete e Michael, Andy Parker na bateria, completa o grupo,e dá um peso absurdo às músicas.

Vamos a isto, metaleiros. Alto e bom som, toca a ouvir estas preciosidades.

Por: Marcos Garcia
Professor de Física e Colecionador - Collector´s Room