sábado, 27 de novembro de 2010

John Legend & The Roots - Wake Up

Há quase exactamente dois anos, John Legend e os The Roots começaram a trabalhar no novo álbum do cantor, "Wake Up!".

"A ideia original era 'vamos fazer algo que reflicta musicalmente o momento em que estamos'", lembra o cantor, que tinha participado activamente na campanha do senador Barak Obama.

O projecto levou dois anos para ser lançado, mas Legend diz que não perdeu nada da sua força ou temporalidade.

"É quase mais relevante agora", diz o cantor, compositor e produtor de 31 anos. "Acho que as pessoas estão mais frustradas do que nunca, em parte por causa da economia, em parte por acharem que os políticos e as elites estão a perder o contacto com o que está ocorrendo nas suas vidas".

As canções em "Wake Up!" são na sua maioria, covers de canções de R&B com letras sociopolíticas de artistas como Marvin Gaye, Donny Hathaway, Curtis Mayfield, Nina Simone e Bill Withers. Estreou no oitavo lugar nas listas de vendas da Billboard 200 quando foi lançado em Setembro e recebeu críticas na sua maioria positivas, mas Legend diz que o efeito criativo do projecto significa mais para ele e para o The Roots do que seu sucesso comercial.

"Mesmo se a missão fosse apenas fazer música com consciência política e social, é possível fazê-la em todos os géneros, de Bob Dylan, John Lennon e Stevie Wonder, aos artistas que cobrimos neste projecto", diz Legend, nascido em Ohio e que ganhou fama em meados dos anos 2000 com o lançamento de três álbuns Top 10 e a conquista de três prémios Grammy.

"Também é possível cobrir todas as diferentes épocas. Não é preciso que todas as faixas sejam dos anos 60 ou 70, apesar desse ter sido um período fértil para esse tipo de música, tanto na soul music quanto no rock e folk".

Assim que ele e o baterista do Roots, Ahmir "Questlove" Thompson, começaram a pesquisar possíveis canções, "descobrimos que o que mais gostávamos era desse tipo de funk-soul de tom 'blaxploitation', porque vocalmente casava bem comigo e sonoramente era o certo para a banda. E aquela foi uma era de músicas e letras de grande inspiração para nós. Limitamos àquele período, mas mesmo ali é possível 'What's Going On' (1971) ou coisas mais obscuras, e escolhemos fazer algumas coisas menos batidas".

Iniciaram imediatamente esse projecto, começando com "Hard Times" (1975) de Mayfield, originalmente gravada por Baby Huey & the Babysitters, "Compared to What" (1969) de Les McCann e Eddie Harris, e "Little Ghetto Boy" (1972) de Hathaway. "Essas deram o tom". Mas "Wake Up!" logo se transformou numa preocupação de prazo para ambas partes: Legend teve que sair em turnê para promover seu terceiro álbum, "Evolver" (2008), enquanto os Roots iniciaram seu período como banda da casa no programa "Late Night Show, with Jimmy Fallon" da NBC e também gravaram seu próprio álbum, "How I Got Over" (2010).


"Tínhamos muito para acertar e conviver com aquilo um pouco mais", diz Legend. "Voltamos no final de 2009 e no início de 2010 e dissemos: 'vamos concluir o álbum'. Então recomeçamos a trabalhar nele de modo intermitente, pela primeira metade do ano, e desenvolvemos o álbum um pouco mais".

Apesar de saberem que "este álbum não se iria enquadrar tão bem nas rádios mais populares", diz Legend, ele e os Roots não tinham nada contra gravar material conhecido para "Wake Up!".

De facto, a faixa-título,"Wake Up Everybody", com os convidados Common e Melanie Fiona- chegou ao 12º lugar na lista da Billboard Hot 100 com Harold Melvin & the Blue Notes em 1975.

"Sentimos que precisávamos de uma ou duas daquela no álbum", reconhece Legend, " e escolhemos-la como primeiro single porque sentimos que era a canção mais dentro do gosto popular para a rádio, no álbum. E Teddy Pendergrass tinha acabado de falecer, e assim, foi tipo um tributo que lhe fizemos. Pendergrass, foi um dos maiores vocalistas daquela época. Como os Roots são da Filadélfia e eu já lá estudei - na Universidade da Pensilvânia, - também fez sentido gravarmos uma cover de um daqueles grandes grupos do Som de Filadélfia.

O reportório, prodigiosamente político de Marvin Gaye também era rico em opções. Daí, terem escolhido, "Wholy Holy" e incorporaram aspectos da versão da canção com toques gospel de Aretha Franklin, gravada no seu álbum "Amazing Grace" (1972).

"Eu achei que seria bom realizar uma versão que unisse parte do tom da versão de Marvin com parte do tom da versão de Aretha", diz Legend.

A canção mais provocativa de "Wake Up!" é "I Can't Write Left Handed" de Bill Withers, um poema de quase 12 minutos contado pelo ponto de vista de um soldado ferido voltado da guerra do Vietname, e lançado por Withers em 1973, mas Legend sente que ela serve igualmente, para os soldados feridos no Afeganistão ou Iraque.

"É uma canção poderosa e queríamos fazer coisas que falassem de guerra, porque é um assunto político importante e, infelizmente, as pessoas não estão a dar a devida atenção. Acho que optaram por voltar as costas, porque é confuso e complicado, e talvez porque não tenham nenhum familiar envolvido e não há uma convocação obrigatória para tornar o país colectivamente preocupado a respeito da guerra"

Também há uma nova canção em "Wake Up!" que encerra o álbum, "Shine", que Legend compôs originalmente para o documentário "Waiting for Superman". O tema do filme, centra-se nos fracassos do sistema educacional americano e certamente, encaixa-se na estrutura conceptual do álbum, mas Legend e os Roots ainda assim fizeram um arranjo próprio, um pouco antes de a adicionarem ao álbum.

"Abordámos o tema, como o nosso cover de Stevie Wonder sem de facto ser uma canção de Stevie Wonder", Legend diz rindo. "Em termos de tom e arranjo, tentamos canalizar parte do trabalho de Stevie dos anos 60 e 70, perguntando-nos o que Stevie faria em relação a alguns dos arranjos com sintetizadores e percussão".

MC Black Thought -nome verdadeiro, Tariq Trotter - dos Roots aparece em algumas das faixas de "Woke Up!", mas não em todas, o que Legend diz ter mais a ver com logística do que com qualquer outra coisa.

"O desafio era que estavam concluindo 'How I Got Over' ao mesmo tempo em que estávamos finalizando ('Wake Up!')", diz Legend. "Por mais talentoso e produtivo que seja, pedir a Black Thought para concluir todos seus versos para 'How I Got Over' e adicionar versos neste álbum é um bocado de trabalho para um compositor. E demoraria muito mais para concluir se tivéssemos um verso de Black Thought em cada canção, apesar dele claramente acrescentar muito tempero a cada canção em que está e ser sempre bem-vindo"

Oiçam o album aqui.

Fonte: Gary Graff

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