sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Alan Freed, o inventor do Rock And Roll

Apesar de no decorrer da sua história o rock and roll ter ficado mais marcado por músicos brancos, deve-se aos negros, trazidos de África para trabalhar nas plantações de algodão dos Estados Unidos, a criação da estrutura rítmica e melódica que seria a base do rock.
Os cantos entoados pelos negros durante o trabalho, no início do século XX dariam origem ao Blues,carregado de tristeza, de melancolia, assim um pouco ao geito do nosso fado.
Um estilo musical basicamente vocal, o blues era geralmente acompanhado apenas por um violão. Enquanto o blues se desenvolvia nos campos e nas pequenas cidades, sobretudo do sul dos USA, nas grandes cidades por sua vez, tocava-se o jazz, baseado na improvisação e executado por bandas maiores e arranjos mais elaborados,com percussão e instrumentos de sopro, constituidas maioritáriamente por musicos brancos,que antes do jazz, swingavam nos grandes salões de baile das metrópoles americanas das décadas de 40 e 50. Os "band leader", eram todos brancos, Benny Goodman, Glen Miller,Tommy Dorsey, e os corooners, ou cantores, eram igualmente de raça branca.
Dos primórdios, e vindos dos campos do sul á destacar, King Oliver, Louis Armstrong, Billie Holiday , Sara Vaugham, Mudy Watters,entre os primeiros negros a imporem-se pela sua qualidade e originalidade, no meio musical americano.
Por outro lado, nas igrejas evangélicas desenvolvia-se a música gospel negra, que embora obedecendo ás escalas de blues, caracterizavam-se por terem um rítmo frenético, sensual, canções de redenção e esperança para um povo oprimido. A música era acompanhada por piano ou órgão.
A situação económica dos USA,após o fim da segunda guerra mundial,e o desenvolvimento da indústria havia levado mais gente dos campos para a cidade, forçando o relacionamento entre brancos e negros e a tensão social e racial, mas favorecendo igualmente,a influência mútua entre a música negra,blues e seus derivados, e a música branca, principalmente country, swing e naturalmente o jazz. Da fusão do blues original com os ritmos mais dançantes dos brancos surgiu o rhythm and blues, que levou a música negra ao conhecimento da maioria dos americanos, que já constituiam uma grande e desenvolvida sociedade consumista.
No início da década de 50, com o final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia, os Estados Unidos despontavam como grande potência mundial. Mais do que em qualquer outro momento da história era incentivado o consumo, a disfrutar a vida, marcada que estava a sociedade pelos anos de sofrimento da guerra.
A população de uma maneira geral e inclusive as minorias pela primeira vez tinham dinheiro para gastar com bens de consumo supérfluos, e entre eles a música.
Numa época de mudanças, surgia igualmente uma corrente intelectual nova, contrária à instituida.
Rebeldia e confronto com a geração anterior, eram as bandeiras desta nova atitude e que se reflectia na literatura, - "The Catcher in the Rye", que em Portugal foi intitulado, "À espera no centeio", de J. D. Salinger, seria publicado inicialmente em formato de revista, entre 1945-1946, nos Estados Unidos da América, mas posteriormente, foi editado no formato de livro em 1951, tornando-se num dos romances mais lidos em todo o mundo. Esta obra foi responsável por criar a "cultura-jovem", pois na época em que foi escrito a adolescência era apenas considerada uma passagem entre a juventude e a fase adulta,sem qualquer tipo de importância.
Mas seria o cinema, a par com a música, a ter igual importância, neste "tsunami" cultural dos anos 50. Filmes como, "A streetcar named desire",em 1951, "The Wild One" em 1954, tendo como protagonista Marlon Brando, e o "Rebel Without a Cause", de 1955, com James Dean, só para mencionar estes dois actores, que viriam a tornar-se em icones imortais para toda a humanidade, trouxeram uma prespectiva diferente para a sociedade americana, e abalaram todas as estruturas vigentes.
Em pleno crescimento económico capitalista o consumo era considerado factor primordial para criação de empregos e divisas, bem como o melhor antídoto contra o comunismo,o grande papão da época, e a busca por novos mercados consumidores era incessante. Obviamente a parcela mais jovem da população rapidamente se mostrou mais influenciável e, ao público adolescente pela primeira vez, foi dado o direito de ter produtos destinados ao seu consumo exclusivo, bem como poder de escolha.
Estranhamente porém os jovens brancos, na sua grande maioria, negavam-se a consumir a música dos seus progenitores.O swing, o jazz e o country, não os excitava de modo nenhum.
Começaram então á procura, na música das minorias, negras, algo que se enquadra-se na postura de rebeldia que estavam a assumir.
Como a indústria discográfica de grande porte não estava preparada para atender o público consumidor com este tipo de música ganharam importância, as pequenas editoras de música negra.
A aceitação deste tipo de música pelo público de maior poder aquisitivo levou a incipiente indústria do vinil da época a investir na evolução do estilo e na procura e contratação de novos talentos, principalmente na procura de um jovem branco que pudesse dominar aquele estilo,criando uma imagem que pudesse ser vendida mais facilmente. Tornaram-se comuns os lançamentos de versões de músicas de compositores negros,gravadas por músicos brancos, sem sequer mencionar a autoria dos temas, ou fazer qualquer referência á origem das musicas, atirando assim, para o anonimato os verdadeiros mentores desta revolução musical.
Uma outra grande revolução de costumes estava em curso. O sexo deixava de ser tabu e passava a ser considerado um acto banal de consentimento mutuo, entre os jovens.
As canções de amor por pressão do público comprador passavam a dar lugar a letras mais explicitas, embora muitas vezes fosse necessário criar versões mais light, sem utilizar a escrita pura e dura dos letristas e compositores negros.
A mistura explosiva da empolgante música negra com o consumismo branco adolescente,estava a ter lugar, no caldeirão efervescente das escolas e liceus das cidades americanas... a explosão seria questão temporal. O rótulo para este novo género musical, já corria de boca em boca.
Era o Rock And Roll
Mas quem inventou o rock and roll?
Obviamente um estilo musical tão complexo não poderia ter a sua invenção atribuida incontestavelmente a apenas um indivíduo ou grupo de indivíduos. Muito menos aos negros.
Mas se alguém merecesse ter seu nome associado à "criação" do rock como o conhecemos este alguém não seria Elvis ou Bill Haley ou Chuck Berry nem nenhum outro cantor ou band leader.
O "inventor" do termo Rock and Roll, e grande responsável pela difusão do estilo, foi o disk jokey Allan Freed, locutor de programas de rhythm and blues de Cleveland, Ohio, quem primeiro captou e investiu na carência do público jovem consumista.
Foi ele, quem primeiro percebeu o potencial comercial da música negra.
O termo Rock and Roll, era uma gíria dos negros americanos, referente ao acto sexual, presente inclusive em muitas letras de blues, ouçam o "My Daddy Rocks Me With a Steady Roll" da cantora Trixie Smith, de 1922.
Allan Freed foi o responsável por usar um nome sonoro, para denominar o novo estilo musical em que ele estava a investir.
Em 1951 Allan Freed criou o programa Moon Dog Show mais tarde renomeado para Moon Dog Rock and Roll Party, e ao mesmo tempo promovia, bailes e espéctaculos com o mesmo nome, em que inicialmente, só passava discos de blues e rhythm & blues. Só mais tarde, divulgaria os novos temas, o novo ritmo, que havia ajudado a definir e a divulgar.O Rock and Roll.
As suas festas apesar dos constantes atritos e reclamações por parte das autoridades eram um sucesso. Os tumultos resultantes da excitação generalizada que a musica de Allan Freed transmitia nas suas actuações,originaram dezenas de processos por incitamento à violência.
Enquanto a juventude adoptava o novo ritmo como sua marca registada os adultos, principalmente, os estratos mais conservadores da sociedade, estigmatizavam esta musica, como musica de negros, musica do diabo, e causadora de toda a delinquência juvenil...

A partir de um texto de João Paulo Andrade

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